"O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo." ( Friedrich Nietzsche )

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Miles Davis – Live-Evil

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“Em junho de 1970, acho, começamos o trabalho em estúdio de um disco que se chamaria Live-Evil. Eu o via como uma extensão de Bitches Brew, embora fosse se transformar em algo diferente. Eu aprendia a tocar o trompete em cima de todos aqueles sons elétricos, e foi algo que realmente me abriu os olhos. Por exemplo, o piano elétrico Fender Rhodes serve de acolchoado pro trompete, que sempre precisa de um acolchoado, por causa do som metálico, penetrante. Dizzy manda o baterista pôr um monte de argolas de metal no prato de pedal; são uma vinte e quatro, o prato vibra quando o baterista bate, e o espaço entre as notas e o prato é preenchido por esse som vibratório, que Dizzy realmente gosta. Mas o Fender Rhodes faz a mesma coisa, só que melhor, porque quando se faz um acorde num instrumento elétrico ele sai limpo, de uma clareza perfeita.
Eu ouvia pra Live-Evil o mesmo tipo de figuras musicais que ouvira pra Bitches Brew, só um pouco mais trabalhadas, porque eu já passara por elas ao fazer este último disco. Em “What I Say”, dei a Jack DeJohnette (aquele mesmo citado no texto do Naná Vasconcelos) um ritmo de tambor, uma figurinha que queria que ele tocasse durante toda a música. Queria que ele fechasse tudo com essa figura, mas que tivesse um pouco de fogo. Pra mim, essa música prepara o disco, dá o estado de espírito, o tipo de ritmo que eu queria. E, sabe, é engraçado, porque nesse disco eu ouvia coisas no registro alto. Em “What I Say” toquei muitas notas no trompete, notas que geralmente não toco, porque não as ouço. Mas ouvi-as muito quando comecei a tocar essa nova música.
Eu gravava tanto nessa época que esqueci grande parte do que se passou no estúdio, e às vezes as imagens se chocam umas com as outras e não distingo qual é qual. Mas me lembro que em Live-Evil invertemos meu nome em uma música, que se tornou “Sivad”, em vez de Davis; outra se chamava “Selim”, em vez de Miles. “Evil” é o inverso de “live”, e algumas das gravações foram ao vivo, na Cellar Door, em Washington, capital. Mas essa inversão era o conceito do disco: bom e mau, luz e treva, funky e abstrato, nascimento e morte. Foi o que tentei dizer com os dois quadros, na frente e atrás. Um mergulha no amor e no nascimento, o outro no mal e na sensação de morte.”

pp 277 e 278 de sua autobiografia.



Miles on trumpet
Keith Jarrett on keyboards
Gary Bartz's alto sax
Jack DeJohnette on drums
Airto Moreira on percussion
Michael Henderson electric bass
and John McLaughlin on guitar
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Disc 1
1. Sivad 15:14
2. Little Church 03:16
3. Medley: Gemini/Double Image 05:54
4. What I Say 21:09
5. Nem Um Talvez 04:02

Disc 2
1. Selim 02:16
2. Funky Tonk 23:23
3. Inamorata And Narration 26:29

Parte 1: Download
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Parte 3: Download ou Download
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2 comentários:

carl disse...

Neide, maravilloso material que compartes con el mundo entero...la vida debe retribuir tu gesto por las artes y por la vida.
el jazz corre por las venas....
carl

DOM GERALDO DA MOGIANA disse...

Vale lembrar que ao menos duas das músicas deste disco (Little church ou Igrejinha e Nem um talvez) foram compostas por Hermeto Paschoal, que, inclusive, participa nas gravações das mesmas, não obstante, estas constem nos créditos como de autoria de Miles Davis e sem nem sequer a menção ao músico do terceiro mundo que invejou Miles com sua versatilidade, virtuosismo e caráter superiores ao americano.