"O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo." ( Friedrich Nietzsche )

terça-feira, 28 de agosto de 2007

La Canción Desesperada, por Neruda

John Ringaud, Sansão quebrando laços

Emerge tu recuerdo de la noche en que estoy.
El río anuda al mar su lamento obstinado.

Abandonado como los muelles en el alba.
Es la hora de partir, oh abandonado !

Sobre mi corazón llueven frías corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cueva de náufragos !

En ti se acumularon las guerras y los vuelos.
De ti alzaron las alas los pájaros del canto.

Todo te lo tragaste, como la lejanía.
Como el mar, como el tiempo. Todo en ti fue naufragio !

Era la alegre hora del asalto y el beso.
La hora del estupor que ardía como un faro.

Ansiedad de piloto, furia de buzo ciego,
turbia embriaguez de amor, todo en ti fue naufragio !

En la infancia de niebla mi alma alada y herida.
Descubridor perdido, todo en ti fue naufragio !

Te ceñiste al dolor, te agarraste al deseo.
Te tumbó la tristeza, todo en ti fue naufragio !

Hice retroceder la muralla de sombra.
anduve más allá del deseo y del acto.

Oh carne, carne mía, mujer que amé y perdí,
a ti en esta hora húmeda, evoco y hago canto.

Como un vaso albergaste la infinita ternura,
y el infinito olvido te trizó como a un vaso.

Era la negra, negra soledad de las islas,
y allí, mujer de amor, me acogieron tus brazos.

Era la sed y el hambre, y tú fuiste la fruta.
Era el duelo y las ruinas, y tú fuiste el milagro.

Ah mujer, no sé cómo pudiste contenerme
en la tierra de tu alma, y en la cruz de tus brazos!

Mi deseo de ti fue el más terrible y corto,
el más revuelto y ebrio, el más tirante y ávido.

Cementerio de besos, aún hay fuego en tus tumbas,
aún los racimos arden picoteados de pájaros.

Oh la boca mordida, oh los besados miembros,
oh los hambrientos dientes, oh los cuerpos trenzados.

Oh la cópula loca de esperanza y esfuerzo
en que nos anudamos y nos desesperamos.

Y la ternura, leve como el agua y la harina.
Y la palabra apenas comenzada en los labios.

Ése fue mi destino y en él viajó mi anhelo,
y en él cayó mi anhelo, todo en ti fue naufragio!

Oh sentina de escombros, en ti todo caía,
qué dolor no exprimiste, qué olas no te ahogaron.

De tumbo en tumbo aún llameaste y cantaste
de pie como un marino en la proa de un barco.

Aún floreciste en cantos, aún rompiste en corrientes.
Oh sentina de escombros, pozo abierto y amargo.

Pálido buzo ciego, desventurado hondero,
descubridor perdido, todo en ti fue naufragio!

Es la hora de partir, la dura y fría hora
que la noche sujeta a todo horario.

El cinturón ruidoso del mar ciñe la costa.
Surgen frías estrellas, emigran negros pájaros.

Abandonado como los muelles en el alba.
Sólo la sombra trémula se retuerce en mis manos.

Ah más allá de todo. Ah más allá de todo.

Es la hora de partir. Oh abandonado !

Heliogravura feita por Baron Frederick Waldeck (1786-1875),
reproduzindo o artista Giulio Pipi, que as fez em 1520, originalmente...
Nem é preciso falar que muitas destas gravuras só não se perderam completamente, no passar dos séculos, graças aos trabalhos dos abençoados copistas... (Neide)
.
Emerge tua recordação da noite em que estou.
O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.

Abandonado como o impulso das auroras.
É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo que o bebeste, como a distância.
Como o mar, como o tempo.Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e o beijo.
A hora do estupor que ardia como um faro.

Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego
túrgida embriaguez de amor, tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a muralha de sombra.
Andei mais adiante do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.

Como um vaso guardando a infinita ternura,
e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.

Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.

Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como pode me conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!

Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.

Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,
e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.

Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos ajuntamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra apenas começada nos lábios.

Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,
e nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!

Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,
que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.

De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te
de pé como um marinheiro na proa de um barco.

Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas correntes.
Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários.

O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como o impulso das auroras.
Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.

Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.

É a hora de partir. Oh abandonado!

domingo, 26 de agosto de 2007

Van Gogh – Cartas a Théo VI

Melancolia, Nuenen, dezembro 1883
.
Carta 133 – julho 1880

"Meu caro Théo,

É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos.
Até certo ponto você se tornou um estranho para mim, e eu talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É impossível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinqüenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo?
E é portanto para agradecer que lhe escrevo.
Como talvez você já saiba, voltei ao Borinage (Região das minas de carvão onde Vincent desenvolveu sua relação com os mineiros), meu pai me disse que seria melhor ficar pelas vizinhanças de Etten: eu disse que não e acredito ter agido melhor assim. Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira?
É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse.
O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isso não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja.
Agora, por mais que reconquistar a confiança de toda uma família, talvez não totalmente desprovida de preconceitos e outras qualidades igualmente honoráveis e elegantes, seja de uma dificuldade mais ou menos desesperadora, eu ainda tenho algumas esperanças de que pouco a pouco, lenta e seguramente, a cordial compreensão seja restabelecida com uns e outros.
Assim é que em primeiro lugar eu gostaria muito de ver esta cordial compreensão, para não dizer mais, restabelecida entre meu pai e eu, e desejaria muito que ela igualmente se restabelecesse entre nós dois.
Compreensão cordial vale infinitamente mais que mal-entendido.
Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos.
Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências.
Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão.
Você poderá entender isto. Quando eu estava num ambiente de quadros e de coisas de arte, você sabe muito bem que fui tomado por uma paixão violenta, que chegava ao entusiasmo. E não me arrependo, e ainda agora, longe dele, muitas vezes sinto saudade do mundo dos quadros.
Você talvez se lembre bem que eu sabia perfeitamente (e pode ser que ainda o saiba) o que era um Rembrandt, ou o que era um Millet, um Jules Dupré, um Delacroix, um Millais ou um Maris? Bom – agora não estou mais neste ambiente, no entanto esta coisa que se chama alma pretende-se que não morre jamais, e que vive sempre e busca sempre mais e mais e ainda mais. Em vez de sucumbir de saudades, eu disse: “O país ou a pátria estão em todos os lugares”. Em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto a tinha a potência de atividade, ou em outras palavras, preferi a melancolia que espera e que aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera.
Portanto, estudei mais ou menos seriamente os livros ao meu alcance, como a Bíblia e a Revolução Francesa de Michelet, e, no último inverno, Shakespeare e um pouco de Victor Hugo e Dickens, e Beecher Stowe e ultimamente Ésquilo e muitos outros, menos clássicos, vários grandes pequenos mestres. Você bem sabe que, entre os que se classificam como pequenos mestres encontram-se um Fabritius ou um Bida.
Agora quem é absorvido por tudo isto às vezes é chocante, shocking para os outros, e sem querer peca mais ou menos contra os usos e formas e conveniências sociais.
;
Pântano, Etten, junho 1881

No entanto, é pena que se leve isto a mal. Por exemplo, você sabe que freqüentemente eu negligenciei meu asseio, eu o admito, e admito que isto seja shocking. Mas veja bem, a penúria e a miséria contribuíram de algum modo para isto, e depois às vezes este é um bom método para garantir a solidão necessária, para poder aprofundar mais ou menos este ou aquele estudo que nos preocupa.
Um estudo muito necessário é o da medicina, não há um homem que não tenha desejado conhecê-la um mínimo que seja, que não tenha procurado saber pelo menos de que se trata e, veja, eu ainda não sei nada disto. Mas tudo isto me absorve, tudo isto me preocupa, tudo isto me faz sonhar, imaginar e pensar? Já fazem agora talvez cinco anos, não sei ao certo, que vivo mais ou menos sem lugar, errando aqui e ali. Agora vocês dizem desde tal ou qual época você caiu, você se apagou, você não fez mais nada. Será que isto é totalmente verdade?
É verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o que eu tenho. Mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?
Talvez você diga: mas por que você não continuou como gostaríamos que continuasse, pelo caminho da universidade? Não responderei mais do que isso: é muito caro; e ademais este futuro não seria melhor do que o de agora, no caminho em que estou.
Mas no caminho em que estou devo continuar – se eu não fizer nada, se não estudar, se não procurar mais, então estarei perdido. Então, ai de mim.
Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.
Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início e vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos.
Você deve saber que entre os missionários acontece o mesmo que com os artistas. Há uma velha escola acadêmica muitas vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes, quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam manter seus protegidos e excluir os homens naturais.
Seu Deus é como o deus do beberrão Falstaff de Shakespeare, “o interior de uma igreja”, “the inside of a church”; na verdade certos senhores missionários (???) se acham por uma estranha coincidência (e talvez eles próprios, se fossem capazes de alguma emoção humana, ficariam um pouco surpresos de aí se acharem) plantados no mesmo ponto de vista que o beberrão típico tem das coisas espirituais. Mas há pouco a temer que algum dia sua cegueira a este respeito se transforme em clarividência.
Este estado de coisas tem seu lado ruim para quem não está de acordo com tudo isto, e que de toda sua alma, de todo coração, e com toda a indignação de que é capaz, protesta contra isto.
Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os respeitáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado – e por que durante tantos anos estive deslocado – é simplesmente porque tenho idéias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir.
Por que lhe digo tudo isto? Não é para me queixar, não é para me desculpar naquilo em que eu possa ter mais ou menos errado, mas simplesmente para lhe dizer isto:
Quando de sua última visita no verão passado, quando nós dois passávamos perto da caverna abandonada. que chama de “A Feiticeira”, você me lembrou que houve uma época em que também passeávamos os dois perto do velho canal e do moinho de Rijswick, “e então”, você me dizia, “nós estávamos de acordo sobre muitas coisas, mas”, você acrescentou, “desde então mudou muito, você já não é mais o mesmo”. Pois bem, isto não é bem assim; o que mudou, é que minha vida era então menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo, quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais serenamente aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava.
Seria portanto um mal-entendido se você persistisse em acreditar que, por exemplo, agora eu seria menos caloroso por Rembrandt ou Millet ou Delacroix ou quem ou o que quer que fosse, pois acontece justo o contrário, apenas, veja você, há várias coisas em que acreditar e amar, e há algo de Rembrandt em Shakespeare, e de Corrège em Michelet, e de Delacroix em Victor Hugo e ainda há algo de Rembrandt no Evagelho e algo do Evangelho em Rembrandt, como queira, isto dá mais ou menos na mesma, desde que se entenda a coisa como bom entendedor, sem querer desviá-la para o mau sentido e se levarmos em conta os termos da comparação, que não tem a pretensão de diminuir os méritos das personalidades originais. E em Bunyan há algo de Maris ou de Millet e em Beecher Stowe há algo de Ary Scheffer.

Canal, outubro 1872, primavera 1873

Agora, se você pode perdoar um homem que se aprofunda nos quadros, admita também que o amor aos livros é sagrado quanto o amor a Rembrandt, e inclusive acredito que os dois se completam.
Gosto muito do retrato de homem de Fabritius que certo dia, ao passearmos também os dois, contemplamos longamente no museu do Harlem. Bom, mas eu gosto da mesma forma de Richard Cartone, de Dickens em sua Paris e sua Londres de 1793, e eu poderia ainda lhe mostrar outras figuras estranhamente comoventes em outros livros, com semelhanças mais ou menos impressionantes. E acredito que Kent, um personagem do Rei Lear de Shakespeare, é tão nobre e distinto quanto uma figura de Th. De Keyser, embora Kent e Rei Lear tenham supostamente vivido muito tempo antes. Isto para não dizer mais nada. Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Sua palavra e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver.
Portanto, você não deve acreditar que eu renegue isto ou aquilo, sou uma espécie de fiel na minha infidelidade e, embora mudado, sou o mesmo e meu tormento não é mais do que este: no que eu poderia ser bom?
Não poderia eu servir e ser útil de alguma maneira? Como poderia saber mais e aprofundar este ou aquele tema? Como você vê, isto me atormenta continuamente. Além disto, sinto-me como um prisioneiro do meu tormento, excluído de participar nesta ou naquela obra, e tendo estas ou aquelas coisas necessárias fora de meu alcance. Por isto sentimo-nos melancólicos, e sentimos grandes vazios ali onde poderiam existir amizades e elevadas e sérias afeições, e sentimos um terrível desânimo corroendo nossa própria energia moral, e a fatalidade parece poder colocar obstáculos aos instintos de afeição, e uma maré de desgosto nos invade. E então dizemos: até quando, meu Deus?
O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora que alguém desejará aproximar-se – e ficar? Que sei eu? Quem quer que acredite em Deus, que espere a hora que cedo ou tarde chegará.
Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois de tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isto como um ganho, ficaria contente, e diria: “Enfim, afinal havia alguma coisa”.
Mas no entanto – você dirá – você é um ser execrável, já que tem idéias impossíveis sobre a religião, e escrúpulos de consciência pueris. Se os tenho impossíveis ou pueris, possa eu me livrar disto, é tudo o que peço. Mas veja mais ou menos o ponto em que me encontro. Você encontrará em O filósofo sob os tetos, de Souvester, como um homem do povo, um simples operário muito miserável que seja, se imaginava a pátria. “Você talvez jamais pensou no que é a pátria”, retomou ele pousando uma mão em meu ombro, “é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas árvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria. As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra será a pátria”.
Ora, da mesma forma tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus, e tudo o que há de ruim e de mau nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus, e Deus também não o acha bom.
Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito. Ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais, eis o que eu digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima, com vontade, com inteligência, e é preciso sempre procurar saber mais, melhor e mais. Isto conduz a Deus, isto conduz à fé inabalável.
Para citar um exemplo, alguém que ame Rembrandt, mas ame-o seriamente saberá que há um Deus, e Nele terá fé. Alguém que se aprofunde na história da Revolução Francesa – não será incrédulo, verá que também nas grandes coisas há uma potência soberana que se manifesta.
Alguém que tenha assistido, mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha prestado às coisas que seus próprios olhos vêem e que seus ouvidos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus nelas. Um o terá dito ou escrito num livro, outro, num quadro.
Depois, leia simplesmente a Bíblia e o Evangelho: isso dá o que pensar, muito em que pensar, tudo em que pensar. Pois bem, pense este muito, pense este tudo, isto eleva seu pensamento acima do nível ordinário, independente de você. Já que sabemos ler, leiamos então.

Entrada, outubro 1872, primavera 1873

Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue.
E o homem abstraído, em compensação, por vezes também tem sua presença de espírito. Às vezes é um personagem que tem sua razão de ser por um ou outro motivo que não distinguimos à primeira vista, ou que, na maioria das vezes, esquecemos involuntariamente. Fulano, que andou agitado como se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino: um outro que parecia não valer nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista. Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.
Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.
Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.
Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.
Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”
Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo...
E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.
Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?
Você sabe o que faz desaparecer a prisão. E toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.
Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.
Além disso, às vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha.
Mas para falar de outra coisa, se eu caí, por outro lado você subiu. E se eu perdi simpatias, você por seu lado as ganhou. Eis o que me deixa contente; falo sério e isto sempre me alegrará. Se você fosse pouco sério e pouco profundo, eu poderia temer que isso não durasse muito, mas como acredito que você seja muito sério e muito profundo, sou levado a crer que isto durará.
Só que se lhe fosse possível ver em mim algo mais que um vagabundo da pior espécie eu ficaria muito contente. Então se eu puder alguma vez fazer algo por você, ser-lhe útil em alguma coisa, saiba que estou à sua disposição.
Se aceitei o que você me deu, você também poderia, caso de alguma forma eu puder ajudá-lo, pedir-me: eu ficaria contente e consideraria isso uma prova de confiança. Nós estamos muito distantes um do outro e podemos ter pontos de vista diferentes; contudo, em dado momento, algum dia, poderíamos ajudar-nos um ao outro.
Por hoje eu lhe aperto a mão, agradecendo novamente a bondade que você teve comigo.
Agora, se mais cedo ou mais tarde você quiser me escrever, meu endereço é chez Ch. Decrucq, rue du Pavillon 8, em Cuesmes, perto de Mons.
E saiba que escrevendo-me você me fará bem.

Do seu,

VINCENT "
.
Mineiros, Cuesmes, setembro 1880

"Fiz o rascunho de um desenho que representa uns mineiros indo para a mina, de manhã, na neve, por um caminho cercado por uma sebe de espinhos, sombras que passam vagamente discerníveis no crepúsculo. Ao fundo se confundem com o céu, as grandes construções das minas de carvão."

sábado, 25 de agosto de 2007

Genesis – Rare Tapes 2

Baixado há tempos do Music Travellers
.
01. Supper's Ready (1972-11-18) 24:00
"Supper's Ready" was and is perhaps the definitive early-Genesis classic. This is the earliest known live recording of the song. Recorded at Imperial College in London, UK.
02. Harold The Barrel (1974-01-20) 04:04
"Harold The Barrel" was only occassionally performed on the Selling England By The Pound Tour (and not very often at all!) This recording is from the Palasport in Reggio Emilia, Italy.
03. Horizons (1974-05-04) 01:52
Only occasionally performed live by the band as an intro to "Supper's Ready," "Horizons" was perhaps the only Genesis song entirely composed by Steve Hackett. Recorded at the Academy of Music in New York City, USA, at the second to last show of the Selling England By The Pound Tour.
04. Watcher Of The Skies (1975-01-24) 08:14
While every Lamb tour show had "The Musical Box" as an encore, second encores were much rarer. "Watcher Of The Skies" was only occassionally performed as a second encore on the Lamb Tour. Recorded at the Shrine Auditorium in Los Angeles, USA. This song and the next two are the only tracks from the January 24, 1975 Lamb show that were not released on the official box set "Genesis Archives Vol. 1: 1967-1975."
05. It (1975-01-24) 04:55
This track was apparently, according to the band, was "left off" their tapes of the Shrine show. In its place on the box set, a new studio recording of the song was included. Recorded at the Shrine Auditorium in Los Angeles, USA.
06. The Musical Box (1975-01-24) 11:20
The third track from the Shrine show that was not released on the boxset. "The Musical Box" was performed at every Lamb show as an encore. Recorded at the Shrine Auditorium in Los Angeles, USA.
07. The Waiting Room (1975-05-02) 08:22
During the final leg of the Lamb tour in Europe, Genesis would often perform rather long versions of "The Waiting Room." Perhaps the best example of a Genesis song comprised of jamming, this track was recorded at the Hippodrome in Birmingham, UK.

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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Luis Buñuel e os Tambores de Calanda

Leyenda y Antecedentes Históricos
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No hay estudios históricos rigurosos sobre el origen del uso de los tambores en la Semana Santa de Calanda. La utilización del tambor como instrumento de celebraciones populares se relata que comenzó allá por la primavera de 1127, cuando sirvió para avisar a la población de una inminente invasión árabe.
Esta tradición volvió a resurgir en 1640 como acción de gracias por lo que se ha dado en llamar el milagro de Calanda, restitución de una pierna previamente amputada a un vecino de Calanda, por intercesión de la Virgen. Luis Buñuel, en su libro de memorias titulado Mi último suspiro, escribe que el origen de los tambores hay que situarlo a finales del siglo XVIII. Mosén Vicente Allanegui, sacerdote calandino, afirma en el manuscrito de la Historia de Calanda que en 1856 se tocaba el tambor.

Precisamente, este sacerdote organizó muchos de los ritos y costumbres que se celebran hoy en día, fundó la Cofradía de La Dolorosa, dio a la percusión un significado religioso y compuso el redoble de la marcha palillera, el más bonito y peculiar de Calanda.
Em Calanda, Zaragoza, tocam-se tambores durante 26 horas ininterruptas, anunciando a morte de Cristo – cerimônia que foi retratada pelo cineasta surrealista Luis Buñuel no filme "Os Tambores de Calanda".
Conta Buñuel a seu biógrafo que, na procissão sob os vibrantes tambores de Calanda, era "salmodiado o texto da Paixão em que se encontrava, repetidamente, a expressão 'os miseráveis judeus', que foi retirada por João XXIII" (Buñuel, Meu último suspiro, p.31).

"Romper la hora"

Cuando el reloj de la Torre del Pilar inicie la cuenta de las 12, en la mañana del Viernes Santo calandino, la hora quedará rota. El sonido de los redobles se convierte en un lenguaje expresivo. A la primera campanada de las doce del reloj de la iglesia, un estruendo enorme como de un gran trueno retumba en todo el pueblo con una fuerza aplastante. Todos los tambores redoblan a la vez. Una emoción indefinible que pronto se convierte en una especie de embriaguez, se apodera de los hombres. Pasan dos horas redoblando así y luego se forma una procesión, llamada El Pregón, que sale de la plaza principal y da la vuelta al pueblo. Va tanta gente que los últimos aún no han salido cuando los primeros ya llegan por el otro lado. En la procesión van soldados romanos con barba postiza (llamados putuntunes, palabra cuya pronunciación recuerda el ritmo del tambor), centuriones, un general romano y un personaje llamado Longinos, enfundado en una armadura, estos dos últimos se baten en duelo en un momento determinado de la procesión, haciendo los tambores un corro en torno a los dos contendientes. El general romano da media vuelta sobre sí mismo para indicar que está muerto, y entonces Longinos sella el sepulcro sobre el que debe velar. Hacia las cinco todo ha terminado, se observa entonces un momento de silencio y los tambores vuelven a sonar para no callar hasta el día siguiente al mediodía. Los redobles se rigen por cinco o seis ritmos diferentes. Cuando dos grupos que siguen ritmos distintos se encuentran al doblar una esquina, se paran frente a frente, y entonces se produce un auténtico duelo de ritmos que puede durar una hora o más. El grupo más débil asume entonces el ritmo del más fuerte. Los tambores, fenómeno asombroso, arrollador, cósmico, que roza el inconsciente colectivo, hace temblar el suelo bajo nuestros pies. Basta poner la mano en la pared de una casa para sentirla vibrar. La naturaleza sigue el ritmo de los tambores que se prolonga durante toda la noche. Si alguien se duerme arrullado por el fragor de los redobles, se despierta sobresaltado cuando éstos se alejan abandonándolo. Al amanecer, la membrana de los tambores se mancha de sangre: las manos sangran de tanto redoblar. A la primera campanada de las dos de la tarde, todos los tambores enmudecen hasta el año siguiente. Pero, incluso después de volver a la vida cotidiana, algunos vecinos de Calanda aún hablan a tirones, siguiendo el ritmo de los tambores dormidos. (Del libro Meu último suspiro, de Buñuel. )

Luis Buñuel

“Sou ateu, graças a Deus”

Autor y director de cine español, nació en Calanda el 22 de febrero de 1900 en el número 26 de la calle Mayor.
Hijo de Leonardo Buñuel y de María Portolés. Su padre era un rico indiano que había amasado una considerable fortuna en Cuba.
Luis fue el primero de siete hermanos.


Luis Buñuel de pé, com seus pais e suas irmãs María, Alicia, Conchita e Margarita e seu irmão Leonardo, Zaragoza, 1913.

Desde muy niño participó tocando el tambor en los redobles de la Semana Santa, quedando fascinado por esta ancestral tradición. Sus amigos cuentan que siempre tuvo una inclinación por el teatro, realizando juegos y travesuras que atraían a toda la chiquillería del pueblo. Representaba figuras chinescas a través de una sábana y con una de sus hermanas, acostada en una mesa, hacía ver como le estaba practicando una autopsia. Tenía una gran facilidad para recitar y se inventaba cuentos diabólicos.

Aunque pronto la familia se fue a vivir a Zaragoza, en vacaciones regresaba a su pueblo, habitando la gran casona construida en la plaza Mayor por el arquitecto Magdalena. Con todos sus hermanos se iban de excursión a las Masada El Vicario, o al Barranco el hornico , fincas de olivares, donde disfrutaban de una paella que les preparaban los criados de la casa.

En Semana Santa, juntamente con sus hermanos Leonardo y Alfonso, acudía con su túnica y tambor a romper la hora y a participar en el todo el ritual de los redobles.

Todas estas ceremonias le causaron un gran impacto, tanto es así, que el mismo manifestó que encontró en el recuerdo de los tambores la fuente de inspiración de muchas de sus películas.


Además la familia Buñuel había construido a principios del siglo XX una torre junto al río Guadalope donde pasaban el verano. La finca estaba distribuida en parcelas que bajaban hasta el rio, formando terrazas. A través de una noria que aprovechaba el cauce de la acequia, que atravesaba la parte baja de la finca, se regaban todos los jardines, hasta los sitios más altos. Cuando la noria se ponía en funcionamiento acudía mucha gente para presenciar el insólito artefacto. En Torre María que así se llamaba la finca habia senderos que sorteaban infinidad de pinos y árboles éxoticos, existiendo en el centro una artistica fuente. Allí los hermanos Buñuel cogían arañas, insectos y escorpiones, pescaban cangrejos y observaban los murciélagos que habitaban en el desván de la casa. Las bromas eran constantes.
Luis Buñuel acompañaba a su padre recorriendo los olivares, observando todos los trabajos agrícolas, que le dejaron una huella indeleble.

Um cão andaluz

Estudíó el bachiller en los Jesuitas de Zaragoza y luego se fue a Madrid a empezando la carrera de Filosofía y Letras, donde estuvo en la Residencia de Estudiantes.

Allí conoció a Salvador Dalí, a Rafael Alberti, a Pepín Bello, a Federico García Lorca y a otros muchos más intelectuales.

En 1929 y en pleno auge del movimiento surrealista, del que fue Buñuel uno de sus abanderados, rodó con Dalí la película Un perro andaluz , que tuvo una enorme repercusión, consiguiendo, por un lado, los más encendidos elogios y, por otro, las críticas más adversas.


Terra sem pão, o documentário

En 1930 culmina otra de sus películas más famosas, La edad de oro.
Buñuel continúa con su actividad creadora y en 1931 rueda Tierra sin pan, documental sobre la comarca española de las Hurdes, que produce un gran escándalo


A Idade do Ouro

En la guerra civil Luis Buñuel se exilia a Mexico, donde su fama empieza a ser poco a poco reconocida. Rueda inolvidables películas como Gran Casino , El gran Calavera, Los Olvidados , recientemente declarada por la Unesco obra cinematográfica patrimonio de la Humanidad, Robinsón Crusoe y su gran obra maestra Nazarin rodada en 1959.

Durante as filmagens de Nazarin

Buñuel con el recuerdo peremne de los tambores de Calanda, pone como música de fondo en alguna de sus películas, la marcha palillera que se interpreta en la mañana del Viernes Santo calandino. Los productores mejicanos no comprenden el atávico sonido de los tambores.
En 1961 regresa a España y rueda Viridiana otra de sus obras maestras, obteniendo con esta película la palma de Oro del Festival de Cannes. Sigue con su actividad creadora y otra vez son los tambores calandinos los que acompañan a Simon el desierto, que dirige en 1966. Continúa rodando alternando los platós de Madrid y Paris, y presenta en 1967 Belle de jour y en 1979 Tristana, cuya acción tiene lugar en Toledo.

Simão no deserto

El genial cineasta calandino vuelve a su pueblo natal por Semana Santa, saliendo a tocar por la noche junto a sus amigos. Tomás Gascón le regala un tambor y juntos interpretan los toques característicos de la población.Buñuel aún ofrece al final de su prolífica carrera, inolvidables peliculas como El discreto encanto de la Burguesía donde obtuvo en 1972 el Oscar a la mejor película extranjera, El fantasma de la libertad (1974) y Ese oscuro objeto del deseo, su última película rodada en 1977

Estátua do cineasta, no Centro Buñuel Calanda

El 29 de julio de 1983, a las cuatro de la tarde, Luis Buñuel fallecia en Mexico. En el Ayuntamiento de Calanda se recibió, en el mismo día una, comunicación telefónica de la Embajada de España, dando cuenta del luctuoso suceso.
Al día siguiente toda la prensa del mundo informaba de la pérdida de uno de los intelectuales españoles más grandes del siglo XX.
El 22 de febrero de 2000, coincidiendo con el centenario del nacimiento de Luis Buñuel, el Príncipe de Asturias, D. Felipe de Borbón, presidió en Calanda los actos conmemorativos e inauguró el CBC (Centro Buñuel Calanda).

Semana Santa en el Bajo Aragón

El Bajo Aragón es una región cargada de historia y tradición que se refleja en su sonido más característico: el retumbar de los tambores y los bombos de Semana Santa.
Desde las alturas de los Puertos de Beceite y Peñarroya, tocando con las provincias de Castellón y Tarragona donde se unen las tres en el Tossal dels Tres Reis a 1356 m., tocando con la provincia de Castellón, hasta los llanos de Alcañiz y Calanda, los diferentes pueblos de arabizados nombres han sabido mantener intactas sus tradiciones combinándolas con las necesidades de la vida moderna, en una clara muestra de su carácter abierto a las novedades y hospitalario con los foráneos.
La espectacular y ruidosa celebración de la Semana Santa del Bajo Aragón está declarada de interés turístico. En ella, el sonido de los bombos y los tambores recuerdan el estremecimiento que sacudió a la naturaleza en el instante en que Jesucristo falleció en la Cruz, y enraíza con las tradiciones precristianas de los ritos del renacimiento de la primavera tras el invierno.

Dicen que los tambores y bombos del Bajo Aragón los trajeron en el medievo las Órdenes Militares. Dicen que cuando calatravos, sanjuanistas, franciscanos... llegaron, ya los aborígenes "sobaban" las pieles para los parches. La tradición oral nos ha traído infinidad de leyendas mezclando pastores y artesanos, curas y órdenes militares. Pero al viajero que se acerque a la Ruta del Tambor y Bombo hay que aconsejarle que no se quede en las leyendas, que se meta en la tierra, que admire las casonas, las calles estrechas, las cuestas empinadas; las iglesias con sus "mormentos"; los calvarios con una imaginería cada día más rica y sorprendente; las ricas reposterías locales y la cocina típica que ya por sí sola merece un viaje. Y los tambores y bombos, como no.

Monumento ao tambor, Alcaniz

La llamada Ruta del Tambor y Bombo del Bajo Aragón está formada por los pueblos de Albalate del Arzobispo, Alcañiz, Alcorisa, Andorra, Calanda, Híjar, La Puebla de Híjar, Samper de Calanda y Urrea de Gaén. En casi todos ellos se celebran ascensiones al Calvario, "Romper la hora" y procesiones de toque de tambor y bombo, pero a pesar de ser pueblos muy próximos entre sí, existen muchos aspectos de sus Semanas Santas que hacen de cada pueblo un mundo. A continuación se exponen las diferencias más importantes.
La primera diferencia entre los pueblos de La Ruta del Tambor y el Bombo, además de los horarios de las procesiones, "Romper la hora" y otros tipos de actos, son las marchas y los toques, ya que no en todos los pueblos se tocan las mismas marchas sino que cada pueblo tiene las suyas propias. Los pueblos más próximos comparten muchas marchas, pero cuanto mayor distancia los separa, las marchas se van diferenciando cada vez más.
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Otra característica diferenciadora de cada uno de los nueve pueblos de La Ruta del Tambor y Bombo es la indumentaria utilizada para el toque de tambor y bombo. Mientras que en La Puebla de Híjar, Híjar, Samper de Calanda y Albalate del Arzobispo, la indumentaria es la clásica formada por túnica, cinto y tercerol negros; en otros pueblos como Calanda y Alcañiz esta tradición ha variado por completo, siendo la indumentaria en el primer caso color morado y en el segundo azul celeste. Además, en Urrea de Gaén ha sido eliminado el tercerol, de igual forma que en Andorra, donde además ha sido añadido el cinto rojo. En ambos caso se ha conservado el color de la indumentaria clásica.
Ir a la Ruta del Tambor y Bombo en Semana Santa es entrar en sus iglesias y encontrar la verdadera fe; degustar las ricas variedades de almendrados, "malhechas", torticas de alma, los bollos llorones y si no es Viernes Santo, prueba la carne a la brasa, las judías con morro y oreja, las migas, el queso de la tierra, escucha el tambor y el bombo, o mejor aún, pide una túnica y un tambor e intenta un redoble. Seguro que volverás.
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Primeiro Link: Toques Calanda 2005

Field Recording Calanda 001 - MP3 (Calanda) Calanda (Aragón, ruta del tambor)
Sons iniciais do festival.

Field Recording Calanda 002 - MP3 (Calanda) Calanda (Aragón, ruta del tambor)
Nesta gravação o som de um trompete chama os tambores a uma pausa. Eles reduzem a velocidade, então nós ouvimos um Saeta ou Misa, uma curta oração, e os tambores recomeçam em seguida

Field Recording Calanda 003 - MP3 (Calanda) Calanda (Aragón, ruta del tambor)
Grupos menores de bateristas caminham nas ruas de Calanda.

As gravações de campo não-editadas feitas em Calanda não capturam o intenso espírito deste evento. Elas lhe permitem simplesmente conhecer os ritmos de Calanda. É virtualmente impossível sentir o espírito e energia da rua durante este festival, você simplesmente tem que ir.


No podía faltar en la seción de La Puebla de Híjar, un ejemplo de aquello que los hace distintos del resto del mundo y de lo que tan orgullosos son. Me refiero al sonido de los tambores y los bombos. En lo siguiente link encontrarás los ficheros MP3 de algunas de las marchas que se tocan en La Puebla de Híjar y en el resto los pueblos de la Ruta del Tambor y el Bombo, o el emocionante momento del cese de La Puebla de Híjar. Además, en exclusiva, la grabación completa de la entrevista realizada por Iñaki Gabilondo en el programa "Hoy por Hoy" de la Cadena SER el día 27 de Marzo de 1997, a la Alcaldesa de La Puebla de Híjar Juana Barreras.

- Repertorio de marchas de La Puebla de Híjar
- Toque de una cuadrilla de La Puebla de Híjar Marcha 1
- Toque de una cuadrilla de La Puebla de Híjar Marcha 2
- Cese del toque del tambor y el bombo en La Puebla de Híjar
· Toque de La Ruta del Tambor y el Bombo El Cuatrero
- Toque de La Ruta del Tambor y el Bombo El Raspa
- Entrevista de Iñaki Gabilondo a la Alcaldesa de La Puebla de Híjar – Juana – Hoy por Hoy



Valero Alonso (tambor de la izquierda), Simón Oliver (bombo del centro), años 70

Fusão de informações retiradas de:




sexta-feira, 17 de agosto de 2007

James Brown – Original Funky Divas

Dedico este maravilhoso álbum ao meu amigo Edson D’Aquino!.
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Aproveitando, não deixem de ir até o Sarava Club e apreciar o projeto Pomba-Gira Beats, coletânea exclusiva do blog com grandes vozes femininas como Nina Simone, Koko Taylor, Sarah Vaughan e muito, muito mais!
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É só Clicar aqui !
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Disc: 1

1. You've Got The Power (Duet) - Bea Ford, James Brown 02:44
2. A Little Taste Of Soul - Sugar Pie Desanto 02:20
3. I Found You - Yvonne Fair 02:28
4. If I Knew - Yvonne Fair 02:27
5. You Can Make It If You Try - Yvonne Fair 02:42
6. Straighten Up - Yvonne Fair 02:36
7. Say Yeah Yeah - Yvonne Fair 02:26
8. I Cried - Tammy Montgomery 02:47
9. If You Don't Think - Tammy Montgomery 01:54
10. If Somebody Told You - Anna King 02:59
11. Make Up Your Mind - Anna King 02:45
12. Baby Baby Baby (Duet) - Anna King, Bobby Byrd 02:36
13. All Of Me - Elsie Mae-'T.V. Mama' 03:16
14. Whole Lot Of Lovin' - Elsie Mae-'T.V. Mama' 02:19
15. Do You Really Want To Rescue Me, Part 1 - Elsie Mae-'T.V. Mama' 02:36
16. This Is My Story - The Jewels 02:29
17. Wide Awake In A Dream - Vicki Anderson 02:47
18. Baby, Don't You Know - Vicki Anderson 03:02
19. Unwind Yourself (Remix) - Marva Whitney 02:38
20. I'm Tired, I'm Tired, I'm Tired (Things Better Change Before It's Too Late) - Marva Whitney 02:28
21. What Do I Have To Do To Prove My Love To You - Marva Whitney 02:28
22. You Got To Have A Job (If You Don't Work-You Don't Eat) - Marva Whitney 04:14
23. It's My Thing (You Can't Tell Me Who To Sock It To), Parts 1&2 - Marva Whitney 04:00
24. I Made A Mistake Because It's Only You, Parts 1&2 - Marva Whitney 04:52
25. Things Got To Get Better (Get Together) (Remix) - Marva Whitney 03:35
26. Answer To Mother Popcorn (I Got A Mother For You) - Vicki Anderson 03:13
27. I Want To Be In The Land Of Milk And Honey - Vicki Anderson 02:54
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Disc: 2

1. The Message From The Soul Sisters, Pts. 1&2 - Vicki Anderson 05:24
2. Super Good (Answer To Super Bad), Pts. 1&2 - Vicki Anderson 05:34
3. I'm Too Tough For Mr. Big Stuff (Hot Pants) - Vicki Anderson 03:25
4. Don't Throw Your Love In The Garbage Can - Vicki Anderson 02:45
5. You're Welcome, Stop On By (Duet) - Vicki Anderson, Bobby Byrd 03:45
6. The Lord Will Make A Way Somehow, Pts. 1&2 - Kay Robinson 05:13
7. People Make The World A Better Place - Shirley Jean & The Relations 02:52
8. Wheel Of Life - Lyn Collins 03:04
9. Think (About It) - Lyn Collins 03:23
10. Me And My Baby Got A Good Thing Going - Lyn Collins 03:18
11. Mama Feelgood - Lyn Collins 04:22
12. Take Me Just As I Am - Lyn Collins 05:36
13. Don't Make Me Over - Lyn Collins 03:50
14. What My Baby Needs Now Is A Little More Lovin' (Duet) - Lyn Collins, James Brown 02:56
15. We Want To Parrty, Parrty, Parrty, Pts. 1&2 - Lyn Collins 04:25
16. Rock Me Again & Again & Again & Again & Again & Again (6 Times) - Lyn Collins 03:26
17. You Can't Love Me, If You Don't Respect Me - Lyn Collins 05:32
18. Put It On The Line - Lyn Collins 03:34
19. Summertime (Duet) - Martha High, James Brown 05:25
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James Brown & Marva Whitney

A Lenda do Boto

Na mitologia amazônica encontramos o mito do "Boto Rosa" que possui a qualidade de emergir das águas do Rio Amazonas à noite e adquirir forma humana. De peixe, transforma-se em um rapaz cuja beleza, fala meiga e sedutora, magnetismo do olhar atraem irresistivelmente todas as mulheres. Por isso, toda a donzela era alertada por suas mães para tomarem cuidado com flertes que recebiam de belos rapazes em bailes ou festas. Por detrás deles poderia estar a figura do Boto, um conquistador de corações, que pode engravidá-las e abandoná-las. Ele também, inseri-se na comunidade, perseguindo as moças, surpreendendo-as na roça, nos banhos, onde quer que estejam e acabam a maioria das vezes, por lhe atribuir o primeiro filho.
Seduzidas, as mulheres mantém encontros furtivos com esta entidade, que ao amanhecer retorna ao fundo dos rios, onde reside.

Algumas testemunhas afirmam que ele sempre se apresenta muito bem vestido, usando um chapéu para ocultar um orifício para respiração que originalmente o animal possui no alto da cabeça. Freqüenta bailes, dançam, namoram, conversam e antes da alvorada, pulam para água e volta à sua condição primitiva, ou seja, torna-se boto.
Conta-se, que certa ocasião, havia uma tapuia que vivia só em sua palhoça e que de repente começou a emagrecer e entristecer sem aparentar moléstia alguma. Desconfiados que fosse obra do Boto, os homens da tribo fizeram-lhe uma emboscada.
À noite viram chegar ao porto um branco que não era do lugar e dirigiu-se para a choupana. Acompanharam-no e quando ele entrou, de mansinho abriram a palha da parede e viram-no querer deitar-se na mesma rede da tapuia. Então, um tiro o prostrou e arrastando-o para a barranca do rio, confirmaram suas suspeitas, tal homem era realmente o Boto. A autoridade local não fez corpo de delito, pois matar um boto não é crime previsto em lei.

Raul Bopp, um poeta profundamente brasileiro, no "Cobra Norato", refere-se assim, graciosamente, a um caso do Boto:
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"- Joaninha Vintem: Conte um causo...
- Causo que?
-Qualquerum.
Vou contar causo de boto:

Amor chovi-á
Chuveriscou
Tava lavando a roupa Maninha
Quando o boto me pegou.

-Ó Joaninha Vintem
Boto era feio ou não?

- Aí, era um moço novo Maninha,
tocador de violão...
Me pegou pela cintura...

- Depois que aconteceu?...

Xentes!
Olha a tapioca embolando no tacho!

- Mas que boto safado!"



Desenho retirado da oficina de desenhos River
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Nos conta a poesia, que a pobre cunhã-poranga (moça bonita), por não ter a sorte de possuir um muiraquitã protetor, não conseguiu livrar-se das malhas de sedução do boto.
Nas noites de luar do Amazonas, afirmam alguns, que os lagos se iluminam e pode-se ouvir as cantigas de festas e danças onde o Boto, ou também chamado de Uiara, participa.
Sedutor e fecundador, conta-se que o boto sente o odor feminino a grandes distâncias, virando as canoas em viajam as mulheres. Isso ocorre sempre a noite, e para evitar o boto, deve-se esfregar alho na canoa, nos portos e nos lugares que ele goste de parar.
As primeiras alusões à lenda apareceram em meados do século XIX, inicialmente referentes a sua transformação em uma bela mulher que atraia os moços ao rio, afogando-os, e pouco depois, aparece como o homem-boto nas cercanias do rio.
Sobrexistindo hermafrodita, o mito termina pela fixação morfológica dicotômica em Boto e Mãe D'Água, o cetáceo, restringindo-se às mulheres e a Iara, aos homens.
A inexistência, no Brasil, nos séculos XVI, XVII e XVIII, de entidades com os atributos do boto, faz supor que a lenda seja de origem branca e mestiça, com projeção nas malocas indígenas e ribeirinhas.
O Boto é portanto, o Dom Juan da planície Amazônica. Seu prestígio, longe de diminuir com as dissipações do tempo, ganha novos florões com os casos que todo dia lhe aumentam o lendário e a fé do ofício. O papel que lhe atribuem não difere muito das proezas que assinalaram a famosa personagem de "Tirso de Molina". O asqueroso mamífero misciforme, com aqueles seus dois a três metros de comprimento, com aquele focinho pontiagudo e encabelado, passa por ser um herói mais atrevido, em matéria de amor, de que os tipos de Merimée.
O Boto é hoje um animal em extinção e grande culpa disso é por que o homem lhe conferiu poderes mágicos. Muitos pescadores os capturam para corta-lhes o pênis com a finalidade de fazer um amuleto de "conquista varonil" ou para combater a impotência sexual. Suas nadadeiras também são utilizadas na fabricação de remédios. Seus olhos são usados como atrair as mulheres. Os pajés costumavam realizar rituais para preparar os olhos do animal a ser entregues e usados pelos necessitados.
A crença neste mito está disseminada pela população ribeirinha do Rio Amazonas. O Boto representa o "animus"das mulheres, que faz inter-relação entre o consciente e o inconsciente. O inconsciente masculino é feminino e regido pelo "anima". O "animus" é a figura masculina arquetípica que reflete o princípio masculino nas mulheres. O Boto é este "animus arquetípico" representando tanto o inconsciente individual quanto o coletivo. Sua grande beleza e poder de sedução são explicados, quando entendemos que ele não é um homem e sim a imagem que as mulheres fazem do homem.

SIMBOLISMO
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O Boto é símbolo de sedução e energia vital.
Todos os animais aquáticos simbolizam o psiquismo, esse mundo interior e tenebroso através do qual se faz conexão com Deus ou com o Diabo.
De natureza ambígua estes seres se ligam aos rios e oceanos, lugar de todas as fascinações e de todos os terrores, imagem da mãe e da deusa-mãe primitiva em seu aspecto generoso e criador e, ao mesmo tempo, terrível. Mares, rios, são lugares selvagens e inumanos, onde a lógica nunca prevalece. É por isso que todos os mitos e divindades marinhas conservarão sempre um caráter arcaico. Saindo dessa água enigmática, os peixes tornam-se eco deste terror antepassado, que roça o desconhecido.

Autoria: Rosane Volpatto

terça-feira, 14 de agosto de 2007

John Coltrane – Olé

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Delicioso, puro êxtase auditivo...

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«Après Miles Davis, Coltrane explore à son tour la tradition modale hispanique (accord, demi-ton supérieur, ton supérieur et retour) sur un morceau qui dure 18 minutes mais il le fait à sa manière, plus énergique, et à nouveau au soprano sur un rythme en 3/4. Outre Tyner et Elvin Jones, Freddie Hubbard est à la trompette et George Lane, qui est crédité à la flûte, est en fait Eric Dolphy venu jouer sous un faux nom. Quant aux contrebassistes, ils sont deux, Art Davis et Reggie Workman, parce que Coltrane souhaitait entendre derrière lui plus de variété rythmique. Outre Olé, les autres titres de l'album sont Dahomey Dance également composé par Coltrane et Aisha dû à la plume de McCoy Tyner »

01-Ole /John Coltrane:(18:18)
02-Dahomey Dance /John Coltrane:(10:52)
03-Aisha /McCoy Tyner: (7:45)
04-To Her Ladyship /Bill Frazier:(9:00)(bonus track)

John Coltrane (soprano & tenor saxophones)
Eric Dolphy (alto saxophone, flute)
Freddie Hubbard (trumpet)
McCoy Tyner (piano)
Reggie Workman(bass)
Art Davis (bass)
Elvin Jones (drums)

Recorded at A&R Studios, New York, New York on May 25, 1961.

Download

Sexo dos Deuses I


Caricatura: E-Brabo
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Texto: livro “O Sexo dos Deuses”,
por Antonio Carlos Olivieri, Cristina Von, Ed. Nova Alexandria

Poligamia, adultério, fetichismo, satiríase, homossexualismo, bestialidade, incesto...
A fulgurante carreira sexual de Zeus – deus que ocupava o topo na hierarquia divina da Grécia antiga – põe no chinelo a performance de qualquer atleta sexual da atualidade, sejam astros do show-biz, jogadores de futebol ou ex-presidentes norte-americanos...

Europa e Zeus
(em forma de Touro)

O deus grego era insaciável e, sendo um deus, não conhecia limites. De fato, o supremo mandatário do monte Olimpo, se não pensava só naquilo, àquilo dedicava grande parte de suas inesgotáveis energias.
Desde a mais tenra infância, Zeus teve a oportunidade de exercitar à vontade seus talentos libidinosos, sem jamais se preocupar com superego ou repressão de qualquer tipo. Além disso, foi criado por uma ninfa doce e sedutora e amamentado por uma cabra altamente suspeita.
Depois da maioridade, casou-se nada menos do que três vezes, com as deusas mais poderosas e deslumbrantes.
Sem nunca levar em conta a possibilidade de criar um anticoncepcional, semeou dezenas de filhos e filhas, algumas das quais também não escaparam ao ilimitado desejo paterno...
Como um grande executivo dos nossos dias, Zeus ainda teve centenas de amantes e diversas aventuras passageiras. Sêmele, Dione, Eurínome, Mnemosine, Letó, Deméter, Afrodite, Alcmene, Egina, Europa, Io, Calisto, Leda, Taigete, Electra, Níobe...


Mosaico Romano:
Zeus raptando Ganymedes

A lista é interminável e inclui também o nome de um jovem mancebo, Ganimedes...
Aliás, Zeus não tinha preconceitos. Sendo um deus supremo, sabia que estava acima do bem e do mal e assumia uma atitude amoral e blasée, como um autêntico personagem de romance existencialista.
Mas, para seduzir quem quisesse, sem ter problemas com as esposas ciumentas (como Hera, que não costumava condenscender com as infidelidades do marido), o chefão do Olimpo recorreu a sua imensa imaginação – literalmente mitológica – e liberou suas fantasias mais secretas: raptou, estuprou, assumiu personalidades diversas (inclusive femininas) e tomou a forma de vários animais, de modo a não ser reconhecido.

Enfim, fez coisas que a maioria dos mortais – e também dos imortais – não costuma imaginar diante das longas barbas brancas, do porte majestático, da face nobre, sisuda e serena daquela onipotente divindade.
Quem espera encontrar em Zeus o arquétipo de um deus sóbrio, comedido e ponderado revela um total desconhecimento da Mitologia grega.
Não só ele – como também todos os outros deuses da Antigüidade helênica – era movido por grandes paixões.
No caso de Zeus, especificamente, estamos diante de um deus que se atira de cabeça toda vez que fica apaixonado, revelando uma imensa disposição para o amor que os seguintes versos do poeta jônio Anacreonte (séc. VI a.C.) traduzem de maneira sintética e com o impacto de um verdadeiro mergulho:
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“Escalo o alvo rochedo
e dele me atiro
às ondas espumantes,
embriagado de amor.”

Gaia, por Oberon Zell
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É bem verdade que, apesar disso tudo, Zeus nunca descuidou de suas atribuições divinas. Só depois de consolidar seu poder como monarca dos deuses é que ele se deu efetivamente o direito de usufruir das mordomias do cargo. Se fosse um espetáculo, o histórico familiar de Zeus jamais seria classificado como familiar. A folha corrida das relações afetivas de seus antepassados faz as tragédias de Nelson Rodrigues parecerem simples contos de fadas.
Para começar, o avô de Zeus, Urano (o Céu), era casado com a própria irmã, Gaia (a Terra), uma vez que os dois se originaram numa mesma entidade, o Caos primordial.
E o incesto não se resumiu a uma única transada: Urano abusava da irmã obrigando-a a servi-lo como uma escrava sexual, noite após noite – e às vezes durante o dia - , ao longo de muitos séculos.
Além de considerar um dever povoar o Universo – o que é uma bela desculpa para fornicar sem parar - , vovô Urano não acreditava que estivesse sendo promíscuo. Afinal, as coisas eram feitas em família.
Gaia acabou dando à luz dezoito filhos: os seis Titãs e as seis Titânides, os três Ciclopes e os três gigantes Hecatônquiros, que tinham – cada um – cem braços e cinqüenta cabeças, de onde se pode concluir, aliás, que os partos foram dificílimos...
Mas Gaia, apesar de imortal, não era de ferro...
Um dia cansou de ser usada como uma máquina de produzir bebês esquisitos. Vendo seu corpo jovem deformar precocemente e ganhar formas cada vez mais arredondadas, a deusa resolveu convocar os filhos para um motim. Chamou os Titãs – seus primeiros seus filhos – e expôs suas reinvincações. Como a mais liberada das mães, já prevendo, talvez, o surgimento dos direitos sexuais femininos, não fez rodeios para entrar em tema tão delicado. Relatou os abusos que sofria em seus mínimos detalhes.
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A castração de Urano,
fresco by Giorgio Vasari and Gherardi Christofano,
c. 1560 (Sala di Cosimo I, Palazzo Vecchio, Florence)

Ao fim da exposição, seus filhos estavam chocados. Ninguém gosta de ouvir as experiências sexuais da mãe, ainda mais se envolvem práticas sadomasoquistas.
Mas, para surpresa geral, cinco de seus filhos acharam que não deviam se meter em briga de marido e mulher(onde nem os deuses querem meter a colher).
Covardemente, a turma bateu em retirada, deixando o pepino para o mais novo do sexteto, Cronos, o único Titã que se compadeceu da sina da mãe, prometendo ajudá-la.
O caçula dos Titãs acreditava que só recorrendo a um método radical poderia garantir o sossego da mãe para todo o sempre. Estava simplesmente decidido a cortar o mal pela raiz. Passou o resto daquele dia calado, afiando uma foice...
Tarde da noite, quando Urano, seu pai, se enfiava entre os lençóis que revestiam o leito aveludado de Gaia, pronto para mais uma orgia, Cronos deixou seu esconderijo no quarto, avançou silenciosamente contra o pai e decepou-lhe os testículos.
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Chronos por Rubens, 1637

Mas a castração do governante do Universo não foi planejada somente em benefício de Gaia. Cronos também tinha outros objetivos, de caráter eminentemente político.
O ato sanguinário correspondia, na verdade, a um golpe de Estado.
Humilhado e impossibilitado de procriar, Urano sentiu-se incapaz para continuar governando um Universo em franco processo de expansão e povoamento.
Optou pelo exílio, que o livraria da vergonha pública. Vitorioso, Cronos assumiu o poder, embora não tivesse propriamente um novo programa de governo.
Ao contrário, resolveu seguir a mesma linha política de seu pai, transformando-se num tirano muito pior do que ele.
Seguindo a tradição familiar, Cronos casou com Réia, uma de suas irmãs Titânides e começou a fazer filhos em escala industrial: Hera, Deméter, Héstia, Plutão e Poseidon...
Mas o novo rei, dotado de onisciência, pressentiu que, no futuro, também poderia ser destronado por um de seus herdeiros. Para não ter o mesmo fim que deu a Urano, resolveu se livrar dos seus rebentos, recorrendo a uma forma muito pouco convencional de planejamento familiar: arrancava os recém-nascidos dos braços da mãe e os devorava. Um a um, Cronos engoliu todos os filhos e já se preparava para a refeição seguinte, quando sua esposa se cansou de engolir tamanho desaforo.
Estava na hora de dar um basta a essa insensatez de ficar comendo as criancinhas.

Depois de ver devorados seus cinco rebentos, Réia decidiu garantir a sobrevivência do próximo, que viria a ser ninguém menos do que o próprio Zeus. Dizem as lendas, que, para trazê-lo ao mundo em segurança, Réia refugiou-se na ilha de Creta. Só depois do parto – numa gruta nas encostas do monte Ida – voltou ao encontro do esposo, deixando o recém-nascido aos cuidados de duas ninfas.
Réia voltou para o reino dos deuses e foi ao encontro de seu marido Cronos. Sabia de seu apetite insaciável em relação aos filhos. Ele já deveria estar com água na boca, ansioso para degustar o próximo banquete. Então, no lugar do menino, entregou-lhe uma pedra envolvida em lençois de linho.
Cronos engoliu-a, como fizera com os pacotinhos anteriores, sem sequer olhar para o recheio do croquete...
Dessa vez, ele pode até ter achado a comida meio pesada, mas, sendo muito seguro de si, talvez não tenha percebido o engano nem na hora de ir ao banheiro.
De qualquer modo, o sexto filho de Réia, Zeus, nosso queridinho, conseguiu escapar à sanha paterna, crescer e seguir seu destino. Viria assim a destronar seu pai, conquistar o poder e tornar-se um dos personagens principais desta narrativa...
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The Olympians; the chief deities of the Greek pantheon

The Olympians, from Dr. Vollmer's Wörterbuch der Mythologie aller Völker.
Stuttgart: Hoffmann'sche Verlagsbuchhandlung, 1874.

sábado, 11 de agosto de 2007

John Coltrane – Prestige 7105, With Thelonious Monk

Dedicado ao amigo Marcelo Ariel, obrigada pela constante ajuda! Abraços meus e da Sophia!
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“Trane era o saxofonista mais ruidoso e mais rápido que eu já ouvi. Tocava rápido e alto, ao mesmo tempo, o que é difícil de fazer. Porque quando a maioria dos músicos toca alto, se trava. Já vi muitos saxofonistas se enrolarem tentando tocar assim. Mas Trane fazia isso e era fenomenal. Era como se estivesse possuído, quando levava aquele instrumento à boca. Era muito apaixonado – feroz – e ao mesmo tempo muito tranqüilo e delicado quando não estava tocando. Um cara puro.
Jamais compôs coisa alguma durante o tempo que esteve em meu conjunto. Tudo que fazia era começar a tocar. A gente conversava muito sobre música nos ensaios e a caminho do trabalho. Eu lhe mostrava muita coisa, e ele sempre escutava. E eu dizia:
- Trane, tome aqui estes acordes, mas não é pra tocar assim o tempo todo, não, sabe? Isso quer dizer que você tem dezoito, dezenove coisas diferentes pra tocar em dois acordes.
Ele ficava ali sentado, de olhos arregalados, absorvendo tudo. Trane era um inovador, e a gente tem de dizer a coisa certa às pessoas desse tipo. Por isso que eu mandava que ele começasse no meio, pois era assim que sua cabeça funcionava mesmo. Ele buscava desafios, e se a gente lhe desse o troço errado, ele não escutaria. Mas era o único músico que podia tocar aqueles acordes que eu lhe dava sem fazê-los soar como acordes.
Depois do trabalho, ele voltava pra seu quarto de hotel e praticava, enquanto todos os demais andavam pela rua. Praticava durante horas, depois de acabar de tocar três sets. E mais tarde, em 1960, quando lhe dei um sax soprano que conseguira com uma conhecida de Paris, uma antiquária, isso teve um efeito no seu tenor. Antes de ganhar aquele soprano, ele ainda tocava com Dexter Gordon, Eddie “Lockjaw” Davis, Sonny Stitt e Bird. Depois de ganhar o instrumento, seu estilo mudou. Depois disso, não tocava mais como ninguém a não ser ele mesmo. Descobriu que podia tocar mais suave e mais rápido no soprano que no tenor. E isso realmente o deixou ligado, pois não podia fazer no tenor o que podia no alto, porque o soprano é um instrumento direto, e como ele gostava do registro baixo, descobriu que também podia pensar e ouvir melhor com o soprano do que com o tenor. Quando tocava o soprano, depois de algum tempo, parecia mais uma voz humana, um lamento.
Depois que gravamos aqueles últimos lados pra Prestige, em outubro de 1956, levei o grupo de volta ao Café Bohemia, e foi lá que aconteceu muita coisa entre Coltrane e eu. Essas coisas já vinham se acumulando há algum tempo. Cara, era uma merda ver o que ele fazia consigo mesmo, a essa altura já se achava realmente dependente da heroína, e também bebendo muito. Chegava atrasado e cabeceava no palco. Uma noite, fiquei tão puto com ele que lhe dei um tapa na cabeça e um soco na barriga, no camarim. Thelonious Monk estava lá nessa noite; fora ao camarim dar boa-noite e viu o que eu fiz com Trane. Quando viu que Trane não reagia e apenas ficava ali sentado como um bebezão, se revoltou. Disse a Trane:
- Cara, do jeito que você toca saxofone, não tem de aceitar essa merda; pode vir tocar comigo quando quiser. E você Miles, não devia bater nele desse jeito.
Eu estava tão puto que pouco ligava pro que Monk dizia, porque, pra começar, não era da conta dele. Despedi Trane essa noite, e ele voltou pra Filadélfia, pra tentar se livrar do vício. Me senti mal mandando-o embora, mas não via que mais podia fazer nas cincunstâncias.
Por mais que eu gostasse de Trane, nós não andávamos juntos depois que deixávamos o estrado, porque tínhamos estilos diferentes. Antes, era porque ele vivia afundado na heroína, e eu acabara de sair dessa. Agora ele estava limpo e quase não saía, voltava direto pro hotel, pra praticar. Sempre levara a música a sério, e sempre praticara muito. Mas agora era quase como se estivesse numa espécie de missão. Me dizia que já fizera muita confusão, perdera muito dinheiro e não dera muita atenção à sua vida pessoal, à sua família e, acima de tudo, à sua música. Portanto, só se preocupava em tocar sua música e crescer como músico. Era só no que pensava. Não podia ser seduzido pela beleza de uma mulher, porque já fora seduzido pela beleza da música, e era fiel à sua esposa. Quanto à mim, depois que acabava a música, eu saía logo buscando a dona boa com quem ia ficar naquela noite. Cannonball Adderley (vocal) e eu conversávamos e saíamos às vezes, quando eu não estava com alguma mulher. Philly e eu ainda éramos amigos, mas ele vivia se enchendo de droga, ele, Paul e Red. Mas éramos todos amigos e todos nos dávamos muito bem juntos.”
(“Miles Davis, a Autobiografia” - pp 180, 194 e 195)



***Em 320 kbps***

1. Bakai
2. Violets For Your Furs
3. Time Was
4. Straight Street
5. While My Lady Sleeps
6. Chronic Blues

Coltrane – tenor saxophone
Johnnie splawn – trumpet
Sahib Shihab – baritone saxophone
Red Garland – piano (#1-3)
Mal Waldron – piano (#4-6)
Paul Chambers – bass
Albert Heath - drums

Recorded May 31, 1957
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***Em 320 kbps***

1 Ruby, My Dear 6:21
2 Trinkle, Tinkle 6:40
3 Off Minor (take 4) 5:15
4 Nutty 6:39
5 Epistrophy (alternate take) 3:09
6 Functional (alternate take) 9:43

Thelonius Monk – piano with on #1,2,4
John Coltrane – tenor saxophone
Wilbur Ware – bass
Shadow Wilson – drums #3,5
Ray Copeland – trumpet
Gigi Gryce – alto saxophone
John Coltrane, Coleman Hawkins – tenor saxophone
Wilbur Ware – bass
Art Blakey – drums
#6 is an unaccompanied piano solo.


Recorded April-July 1957

Parte 1