"O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo." ( Friedrich Nietzsche )

terça-feira, 3 de julho de 2007

Serge Gainsbourg

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Hospedagem e Montagem: Neide


Acredito que seja praticamente impossível uma pessoa
que não conheça
Je t´Aime Moi Non Plus (1969)...
mas Gainsbourg experimentou muito, foi bem além disso...


Serge Gainsbourg - An introducing with Champaign to
Serge Gainsbourg (2004)
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01. L’Alcool 04:03
02. New-York – USA 02:22
03. Couleur Café 02:19
04. L’Eau A La Bouche 02:37
05. La Javanaise 02:35
06. Requiem Pour Un Con 02:56
07. Je T’Aime Moi Non Plus ( duo with Brigitte Bardot ) 04:31
08. Bonnie & Clyde ( duo with Brigitte Bardot ) 04:23
09. Comic Strip 02:18
10. Docteur Jekyll Et Mister Hyde 02:00
11. Initials B.B 03:40
12. Ford Mustang 02:44
13. Je T’Aime Moi Non Plus ( duo with Jane Birkin ) 04:26
14. 69, Année Erotique 03:25
15. Jane B. 03:13
16. Les Sucettes 02:42
17. Manon 02:43
18. La Décadanse ( duo with Jane Birkin ) 05:17
19. L’Hôtel Particulier 04:08
20. En Melody 03:27
21. Je Suis Venu Te Dire Que Je m’en Vais 03:26
22. Lunatic Asylum 03:24

Additional Bonus Tracks By Brigitte Bardot
23. Harley Davidson
24. Contact 02:23

“Nasceu em Paris, filho de judeus russos que haviam imigrado para a França, fugindo da revolução de 1917. O pai era pianista e tocava em clubes da cidade.
A mudança de Lucien Ginzburg para Serge Gainsbourg aconteceu no final da década de 50. Estreou em vinil em 1958 com Du Chant à la Une ! Sua carreira deslanchou em 1966, em meio à febre das Ye Ye Girls, quando passou a compor e empresariar a jovem cantora France Gall. Em 1968 começou um affaire com a atriz Brigitte Bardot, com a qual gravou canções memoráveis.
Je t'aime moi non plus havia sido composta originalmente para Brigitte, mas ela, insegura com o escândalo que a música poderia causar (e certamente causou), preferiu não lançar o dueto. Serge, por sua vez, encontrou uma substituta à altura: a atriz inglesa Jane Birkin, que já havia causado escândalo com cenas de nudez em Blow Up (de Michelangelo Antonioni) e com a qual foi depois casado.
Também foi ator e cineasta. Contudo, seu maior personagem era ele mesmo. Viciado irrecuperável em cigarros, álcool, mulheres e versos com temas polêmicos, ele colecionou escândalos e amantes durante toda a vida.
O sucesso no entanto foi inegável, e a canção foi regravada mais tarde por Donna Summer e Ray Conniff, entre outros.
Sempre foi muito polêmico por seu comportamento, e suas músicas só faziam sucesso quando eram cantadas por outros artistas ou anos depois.
Serge Gainsbourg foi um talentoso compositor que soube trafegar por diversos ritmos e estilos. Produziu muitas músicas para filmes e trabalhos que vão do jazz ao rock ao reggae, incluindo um álbum com The Wailers na Jamaica.
Serge faleceu em 2 de março de 1991, em conseqüência de um coração que já não podia mais com uma vida de excessos. Seu corpo descansa no cemitério de Montparnasse, ao lado dos pais.”



“Um Punhado de Gitanes (Editora Barracuda, 239 páginas tradução de Juliana Lemos), biografia escrita pela jornalista inglesa Sylvie Simmons e lançada no Brasil no final de 2004, mostra um pouco da vida deste viciado em cigarros, licor de anis [Pastis, por favor] e mulheres, que sempre soube reverenciar suas paixões de uma forma inédita. Não que, ao prestar atenção em uma letra escrita por ele você se surpreenda e se pergunte “como é que eu nunca pensei nisso?”, mas que você constate “eu nunca teria pensado nisso”. Trocadilhos, onomatopéias e parcerias com as mulheres mais cobiçadas da sua época [Brigitte Bardot, Caterine Deneuve, Isabelle Adjani, France Gall, Françoise Hardy, Vanessa Paradis e seu eterno amor Jane Birkin] eram a tônica da forma poética do compositor.



Em suas músicas, Gainsbourg brincava com temas polêmicos como o suicídio [como em “Chatterton”, cuja letra faz uma lista de celebridades que se mataram e arremata dizendo “Quanto a mim?/ Eu vou muito bem”], pedofilia [em um dueto com sua filha Charlotte, versa sobre o amor paterno, mas no clipe o que aparece são os dois em uma cama usando, cada um, uma parte do mesmo pijama], vícios, morte e até uma versão do hino da França que, excomungada pelos jornalistas e políticos franceses, fez com que ele atingisse um objetivo há muito tempo perseguido: cair nas graças do público jovem.
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Quando o twist invadiu a França no início da década de 60, Gainsbourg achou que estava liquidado. Sua posição na gravadora ficou desprivilegiada em vista do crescente número de músicos contratados para traduzir sucessos do rock americano para a língua francesa. Neste clima de quase desistência, foi para casa e compôs “Requiem Pour Un Twisteur”, a história de um cara que dança tanto que acaba morrendo. Mas logo depois desta fase de desespero e inspirado por bandas inglesas com as quais simpatizava [e músicos com quem simpatizava, como Ray Davies, Brian Jones e Phil May] teve a idéia de gravar um disco na Inglaterra, com instrumentistas ingleses para tentar emplacar músicas com tendências mais modernas. Ele não queria a França. Ele queria o mundo. As músicas foram um sucesso, mas na voz de outras cantoras que as interpretaram posteriormente. Gainsbourg chegou a fez ótimas canções de rock. Claro que à sua maneira, com uma aura particular, meio blazé e intelectualmente inacessível aos ouvidos jovens da sua nação.
Mesmo sem emplacar seus rocks, não perdeu o tesão por continuar desbravando novas tendências e adaptá-las ao seu estilo.
E foi esta jornada em busca de um ritmo diferente que levou Gainsbourg à Jamaica no final dos anos 70, para gravar um disco com os maiores músicos daquele país na época: Sly Dunbar, Robbie Shakespear, Sticky Thompson e as vocalistas do I-Three, que tinha como integrante a amada/odiada Rita Marley. Ou seja, a nata do reggae. O resultado foi o álbum L´Homme A Tete De Chou, de 1976 [O Homem com Cabeça de Repolho – acho que todo mundo deve se sentir assim depois de uma temporada na Jamaica...].

Sem dúvida, concordo plenamente que este é um dos álbuns mais estranhos e interessantes da carreira de Gainsbourg...

Gainsbourg - L’Homme a la Tete de Chou (1976)
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1. L'Homme A Tête De Chou 02 :59
2. Chez Max Coiffeur Pour Hommes 01:58
3. Marilou Reggae 02:11
4. Transit A Marilou 01:31
5. Flash Forward 02:36
6. Aéroplanes 02:36
7. Premiers Symptômes 01:14
8. Ma Lou Marilou 02:41
9. Variations Sur Marilou 07:40
10. Meurtre A L'Extincteur 00:47
11. Marilou Sous La Neige 02:23
12. Lunatic Asylum 03:21

Download
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Em 1979 é lançado o álbum que contém a polêmica “Aux Armes Et Caetera”, supracitada decomposição do hino francês (no disco de mesmo nome).
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Alter-ego
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Sua trajetória bêbada inventara um novo ser, Gainsbarre. Uma espécie de Mr. Hyde que colocava Henry Chinaski no chinelo e o levava a pagar micos inacreditáveis em rede nacional – como quando colocou fogo em uma nota de cem francos para responder uma pergunta sobre o valor do dinheiro para ele. A boemia instaurada por Gainsbarre era tão exacerbada que, depois de uma certa hora da madrugada, os bares esvaziavam e ele ficava sem companhia. Então comprava algumas garrafas e ia para a delegacia beber com os policiais de plantão, que, invariavelmente, o carregavam para casa ao amanhecer. Policiais ou lixeiros, mas sempre carregado...
E foi assim até o fim, quando morreu sozinho em sua cama. Os franceses gostam de dizer que Serge morreu de cansaço – e no dia em que sua morte foi anunciada a França parou. À noite, ao invés de um minuto de silêncio, todas as boates tocaram “Je Suis Venu Te Dire Que Je M´en Vais”, um poema de despedida escrito por Paul Verlaine e lindamente musicado por Gainsbourg. Quem ouviu chorou.
Sua atitude de dândi rebelde influenciou inúmeras bandas desde os anos 80 [Mano Negra, Lês Negresses Vertes] até os dias de hoje [Air é o reflexo do impacto de Gainsbourg]. O efeito Serge permeou todo o britpop e foi além dele – através de bandas como Pulp, Suede, Divine Comedy, My Bloody Valentine, Black Grape, St. Etienne, Stereolab, The High Llamas e Baby Birkin. O australiano Mick Harvey, dos Bad Seeds [a banda de Nick Cave] lançou dois discos com músicas do compositor traduzidas para o inglês, como tentativa de popularizar o compositor quebrando as barreiras lingüísticas. No Japão, os maiores arautos do francês são Pizzicato Five e Kazuko Hohki. Para citar apenas alguns dos americanos que babam por ele, temos o Luna, o ex-Faith No More Mike Patton, a dupla nipo-nova-iorquina Cibo Matto e as garotas do Luscious Jackson. Ah... Beck ficou tão impressionado quando o pessoal do Sonic Youth lhe mostrou alguns vídeos de Gainsbourg que correu para Paris para fazer um dueto com Jane Birkin [“L´anamour”].
Muitas passagens ficam de fora desta nova biografia, principalmente as coisas ocorridas durante seu romance com Bardot e outras do final de sua vida. Mas o que está lá já é um bom aperitivo para quem não fala francês e não pode ler Gainsbourg, de Gilles Verlant, que vem com mais de 600 páginas e depoimentos do próprio músico. Mas vamos dar um desconto, né? Afinal, Sylvie Simmons é apenas uma inglesa, apaixonada sim pela obra de Serge, mas que não esteve por perto o tempo todo para saber dos fatos à medida em que eles iam acontecendo.


“A primeira vez que ouvi falar de verdade a respeito de Serge Gainsbourg foi em 1998, em um documentário qualquer exibido pelo Multishow.
Como todo mundo, eu conhecia Gainsbourg desde sempre, mesmo sem saber: através de Je T'Aime, Moi Non Plus, a "melô do motel". E como todo mundo, eu tinha um desprezo enorme pelo sujeito, porque ele, claro, era apenas um palhaço brega, autor de uma piada que deu certo.
Foi aquele documentário, apresentando uma perspectiva diferente, mais abrangente e principalmente mais informada, que me fez ver que as coisas não eram bem assim. Na verdade, Gainsbourg era brilhante e eu não era tão inteligente quanto pensava.
Agora leio "Um Punhado de Gitanes", de Sylvie Simmons, e minha opinião muda novamente. Gainsbourg era um gênio...Não foi à toa que se tornou ídolo na França. Quase uma instituição -- meio torta, é verdade, mas ainda assim uma instituição. Talvez um pouco disso seja pelas mulheres que teve: Brigitte Bardot, naquela época, era um acréscimo e tanto ao currículo de qualquer um. Mas seria diminuir Gainsbourg creditar sua fama a isso: ele conseguiu mais, e fez excelente música com ela. Em Comic Strip, por exemplo, o que o sujeito faz é fantástico: coloca BB para fazer os sons das onomatopéias dos quadrinhos. É brilhante, absolutamente brilhante.


Depois veio Jane Birkin, a mulher que praticamente se tornou a outra metade de Gainsbourg.
É difícil saber qual o maior talento de Gainsbourg. Talvez seja o de letrista. A delicadeza de letras como a de Comment Te Dire Adieu (Mon coeur de silex vite prend feu / Ton coeur de pyrex resiste au feu (...) Sous aucun prétexte je ne veux / Devant toi surexposer mes yeux / Derrière un Kleenex je saurais mieux) mostram que o sujeito tinha um talento descomunal para jogos de palavras e para o inusitado -- rimar Silex, Pirex e Kleenex, e ainda aparecer com um prétexte e um surexposer belamente desconstruídos, não é para todo mundo. Mas pouca gente no Brasil sabe disso. É essa a nossa triste sina: a anglofilia idiota e compulsória pós-1964 impede que uma letra instigante como a de Je T'Aime, Moi Non Plus (que significa algo como "Eu te amo, eu também não") seja compreendida, e então um conjunto brilhante (acordes repetitivos, interpretação com conotação fortemente sexual, letra cheia de duplo sentido) é relegado a isso, a "música de motel".
Gainsbourg tinha uma qualidade rara: para ele, cada canção era uma canção. É o que explica sua trajetória errática, do jazz ao reggae, passando por virtualmente todos os gêneros da música popular. Algo em Gainsbourg fazia com que ele estivesse sempre atrás do que havia de mais atual na música. E não era só isso: ele tinha também uma concepção própria da arte e da música, mais elaborada do que os escândalos que protagonizava poderiam fazer pensar.
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Mas foi durante os anos 70 que Gainsbourg se tornou realmente grande. Ao talento natural do compositor ele acrescentou uma maturidade como artista que, de longe, o transformou no maior músico francês, e uma seqüência de grandes discos apareceu a partir daí.
O primeiro é o Histoire de Melody Nelson, de 1971, um álbum conceitual que conta a história da paixão de um francês de meia idade por uma garota inglesa, e que, como a história semelhante contada por Nabokov, só pode acabar em tragédia. A última faixa, Cargo Culte, é uma das mais tragicômicas de um sujeito qeu se especializou nisso.


O disco a seguir foi baixado do The Music I Like...

é como diria a pessoa que o hospedou originalmente :

“Trinta minutos de grooves banhados em uma orquestração majéstica, guitarras delirantes e sensuais, melodias irresistíveis e um empolgante coral no final melancólico. Tudo muito dramático, muito filosófico, muito Serge.”


Serge Gainsbourg - Histoire de Melody Nelson (1971)


1.melody 07:32
2.ballade de melody nelson 02:00
3.valse de melody 01:31
4.ah! melody 01:48
5.l'hotel particulier 04:06
6.en melody 03:25
7.cargo culte 07:37
Depois vem Vu de L'Extérieur. Se alguém ficou encantado com o "Secreções, Excreções e Desatinos" de Rubem Fonseca deveria escutar esse disco, uma ode à escatologia em canções como Des Vents Des Pets Des Poums e na belíssima Sensuelle et Sans Suite (Une histoire sensuelle et sans suite / Ça fait crac ça fait pschtt). Quando lembram do talento de Cazuza ao encaixar "desminlingüido" numa canção, eu penso em como Gainsbourg conseguiu fazer poesia com os sons que saem do traseiro de alguém.
E L'Homme À Tête de Chou, para muita gente um de seus melhores discos.
Aux Armes Et Caetera, de 1979, é, acima de tudo, um grande disco de reggae. Não podia ser diferente, com Sly Dunbar e Robbie Shakespeare na cozinha, e Rita Marley nos backing vocals como parte do The I Three. A faixa-título causou escândalo na França por ser uma versão reggae da Marselhesa, as outras deixaram Bob Marley puto ao descobrir que sua mulher tinha cantado letras eróticas sem saber, e o disco consolidou a imagem de Gainsbourg para sempre.
"Um Punhado de Gitanes", no entanto, é parcial. Embora se pretenda apenas um apanhado geral sobre a vida e a obra de Gainsbourg, e tenha bastante sucesso nisso, falha em deixar mais claro que, a partir dos anos 80, a trajetória de Gainsbourg foi de decadência absoluta, tanto pessoal quanto musical. O Serge Gainsbourg que aparecia nos programas de entrevistas, aquela tradição francesa insuportável, era apenas uma sombra de um artista que havia sido realmente grande. Seus discos passaram a ser ruins, medíocres; sua vida se tornou ainda mais caótica. Seus vocais falados se tornaram caricaturas. O homem que morreu em 1991, um mês antes de completar 63 anos, estava doente e quase cego, com apenas um terço de seu fígado. Mas aquele era o homem que, para tanta gente, ofereceu mais contribuições à língua francesa no século passado. E, mesmo decadente, era o sujeito que em um daqueles tais programas disse -- e repetiu em outra lingua, para que não ficasse dúvida -- em alto e bom som para uma Whitney Houston escandalizada: "Eu quero foder você."
Meus ídolos são velhos. São os mesmos há anos. É um alívio encontrar, depois de tanto tempo, um sujeito que foi adolescente até os 63 anos, que manteve, para o bem e para o mal, a pureza idiota e caótica de uma puberdade que não queria passar e que se manifestava não apenas em Gitanes sucessivos, mas em música de qualidade e poesia inteligente.”
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(Meus sinceros agradecimentos...)



Um comentário:

Poizentão disse...

muito obrigada pela excelente publicação!