"O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo." ( Friedrich Nietzsche )

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Homenagem a Taxi Driver, de Martin Scorcese

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Hospedagem, pesquisa de imagens, transcrição dos diálogos
e Montagem: Neide

Fusão de informações encontradas em
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Post dedicado à todos os irmãos da madrugada...


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"A solidão me perseguiu minha vida inteira. Em todos os lugares.
Em bares, em carros, calçadas, lojas,
em tudo.
Não há como fugir, sou o solitário do Senhor"
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'“12 horas trabalhando e ainda não consigo dormir...
Cacete, os dias duram uma eternidade...
Minha vida precisa apenas de um senso de direção...
Não acho que deva ser devotada à auto-contemplação mórbida...
Acho que é preciso se tornar uma pessoa como os outros...”
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Logo no início do filme, quando Travis se oferece para a vaga de motorista de táxi, ele tenta dizer algo engraçado, mas o atendente apenas o estranha. Essa estranheza e esse tom de incomunicabilidade vão dominar o restante do filme, seja nas situações mais prosaicas - por exemplo quando Travis vai comprar refrigerante no cinema, ou em cenas centrais da história com as personagens Betsy (Cybill Shepherd) e Iris (Jodie Foster). Há pequenos momentos de empatia, por exemplo: Betsy sendo convencida por Travis a sair com ele, mas eles são seguidos de situações esdrúxulas e diálogos de categoria kafkiana, os quais não levam a lugar algum e, não estabelecem nenhuma comunicação positiva.

A bela Cybill Sheperd, como Betsy, um amor frustrado...

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De início ele se envolve amorosamente com Betsy personagem de Cybil Sheperd. Depois de o relacionamento não dar certo ele conhece Íris, uma jovem prostituta, o que faz explodir toda a sua raiva e violência, planejando até um atentado contra o senador.
Não só Travis não consegue se relacionar com o mundo dos outros, como também os demais personagens não parecem ter nada de significativo a dizer para ele. Numa cena importante, sentindo-se confuso, Travis pede conselhos a um colega da empresa de táxi conhecido como Wizard (Peter Boyle). O próprio apelido viria da sua sabedoria superior, Wizard é atencioso e de fato tentar orientar Travis, mas suas palavras são superficiais e inócuas. Depois dessa tentativa falha de entender o que está acontecendo, os problemas de Travis só farão aumentar. Com Travis, Iris tem ao menos um lapso de percepção: "não sei quem é mais esquisito aqui, eu ou você".

Jodie Foster, como a prostituta mirim Íris


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Paul Schrader, roteirista do filme, disse que encontrou na profissão de motorista de táxi um modo perfeito para representar a solidão típica dos centros urbanos, aquela que se dá com uma enorme quantidade de pessoas ao entorno. Entre tantos méritos de Taxi Driver está uma representação inesquecível da melancolia dos passeios noturnos numa grande cidade.
Travis expressa várias vezes sua repulsa em relação aos "animais da noite", como prostitutas, cafetões e bandidos. Por outro lado, ele é atraído e obcecado por eles, trabalha intensamente nos turnos da noite e cobre regiões perigosas que seus colegas evitam. O filme muda de tom justamente quando Travis deixa de apenas assistir a cidade do seu carro e resolve interferir. Suas tensões internas e divagações vão passar a ter conseqüências práticas.


O sempre ótimo (em minha ótica de fã) ator Harvey Keitel, como o cafetão Sport
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Uma das antológicas seqüências do filme...
Nela, Travis Bickle, mergulhado em sua loucura e isolamento, conversa com o espelho,
respondendo a um inimigo imaginário:
“Vi você sacar seu merdinha!
Fui mais rápido seu filho da puta!
Estou parado aqui...
Você primeiro...
Você primeiro...
É a sua vez...
Você esta falando comigo?
Você está falando comigo?
Você está falando comigo?
Então com quem está falando, é comigo?
Só eu estou aqui...
Com quem acha que está falando, porra?
Ah, é?
Tudo bem.”




As nuances no olhar de Travis, personagem construído de forma brilhante por De Niro.







Algumas pessoas que não gostam de Taxi Driver, apontam a dificuldade de compreender as ações de Travis e a falta de informações sobre a origem do personagem. Sabemos que ele foi fuzileiro naval, que tem pouca formação, porém quase nada sobre o seu passado. Retomando alguns outros filmes dos anos 70, podem ser encontrados igualmente personagens que estão quase sempre em cena, mas ainda mantêm um forte grau de imprevisibilidade e mistério. Atualmente esse tipo de construção é muito incomum e as conexões de causa-efeito tendem a ser didaticamente estabelecidas e reiteradas, o que freqüentemente força a simplificações dramáticas excessivas.
Certamente há um arco dramático em Taxi Driver, mas não temos, por exemplo, um flash back mostrando um episódio traumático, o qual explicaria claramente tudo o que está acontecendo. Como espectadores, partilhamos com os outros personagens a dificuldade de compreensão sobre Travis. Há uma incomunicabilidade estrutural no filme. Com o apoio disso, as ações do personagem guardam todo o seu impacto. Um dos trabalhos mais perturbadores da história do cinema e também a maior obra-prima de Martin Scorsese juntamente com Touro Indomável. Táxi Driver é a revolta de uma pessoa contra toda a sociedade que o rodeia, cheia de regras e princípios muitas vezes bobos e insignificantes. É um daqueles filmes que você fica refletindo por horas, em parte por ele ter muito conteúdo e tratar a violência de forma poucas vezes antes vista, em momento nenhum se tornando cansativo.
Um dos momentos mais marcantes foi a cena final, onde Travis Bickle provoca uma verdadeira matança. Um conjunto perfeito de fatores que tornam esta a melhor parte do filme, edição, direção... Robert De Niro está muito bem também, conhecido por ser um ator extremamente perfeccionista, desta vez ele trabalhou por doze horas durante um mês como preparação para seu personagem. É espetacular toda a transformação pela qual sofre o seu personagem, às vezes parece impossível distingui-lo, tamanha a mudança, de um “bom cidadão” a um “completo marginal”
Além de todo o fator social é apresentado também o igualmente bem explorado fator psicológico, exposto em forma de dualidades. O protagonista tem momentos de altruísmo e outras vezes perde completamente a noção, forma esta que não é mostrada somente neste filme, mas sim em todo o mundo ocidental. Expõe a idéia de que a pessoa sempre teve um lado delinqüente dentro de si, que pode eclodir a qualquer momento....


Direção: Martin Scorcese
Ano:1976
País EUA
Duração: 114 minutos

Elenco:
Robert De Niro (Travis Bickle)
Jodie Foster (Iris)
Albert Brooks (Tom)
Harvey Keitel (Sport)
Leonard Harris (Charles Palantine)
Peter Boyle (Wizard)
Cybill Sheperd (Betsy)
Norman Matlock (Charlie T)
Diahnne Abbott
Martin Scorsese


“Paul Schrader escreveu Taxi Driver em 1972, completando seu primeiro rascunho em apenas 7 dias. Ex-crítico de cinema, Schrader fez de seu personagem principal um motorista de táxi, pois percebeu que era o tipo de homem que andou, trabalhou e falou, mas mesmo assim permaneceu invisível ao seu próximo.
Em suas palavras: “ Taxi Driver dramatiza as condições verdadeiramente humanas de solidão, de um ser humano que se move entre a multidão furiosa, acotovelada, arisca, ignorada ou insultada, alheia ou fofoqueira, mas que de alguma forma é absolutamente intocado por isso, em função de seu secreto mundo de fantasia e pela total inabilidade em se comunicar com seus camaradas humanos. Em resumo, um homem solitário, sofrendo para ser notado, reconhecido e amado, mas incapaz de alcançar isto.”
O roteiro de Schrader foi adquirido pelos produtores Michael e Julia Phillips, que contratarm Martin Scorcese para dirigir Taxi Driver após assistirem ao excepcional filme do diretor, Caminhos Perigosos.
Para interpretar o motorista de táxi Travis Bickle, Scorcese recrutou seu astro de Caminhos Perigosos, o vencedor do oscar Robert De Niro (Melhor Ator Coadjuvante, O Poderoso Chefão 2, 1974). Ele se juntaria nas telas à atriz, então com 12 anos, Jodie Foster, Harvey Keitel (outro saído de Caminhos Perigosos), Albert Brooks, Peter Boyle e Cybill Shepherd.
Taxi Driver foi totalmente filmado em locações na cidade de Nova York durante o verão de 1975. Entre os locais usados pelos realizadores estavam a Cafeteria Belmore, na rus 28 e a Park Avenue South, um cinema pornô da rua 8, o Columbus Circle e a região do Garment District.
Para escrever a trilha musical do filme, Scorcese recrutou o lendário compositor Bernard Herrmann, que morreu dormindo horas após as sessões de gravação terem terminado.
Brutal, assustador e cinematograficamente brilhante! Estreou em 8 de fevereiro de 1976."
(Retirado do encarte do dvd)
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Taxi Driver – Original Recording Remastered

1 Main Title (2:15)
2 Thank God for the Rain (1:38)
3 Cleaning the Cab (1:05)
4 I Still Can't Sleep/They Cannot Touch Her (Betsy's Theme) (4:31)
5 Phone Call/ I Realize How Much She Is Like the Others/A Strange Custome (6:10)
6 .44 Magnum Is a Monster (3:20)
7 Getting into Shape/Listen You Screwheads/Gun Play/Dear Father & Mother/ (5:25)
8 Sport and Iris (2:18)
9 $20 Bill/Target Practice (2:33)
10 Assassination Attempt/After the Carnage (5:04)
11 Reluctant Hero/Betsy/End Credits (4:40)

Additional Interpretations:

12 Diary of a Taxi Driver (Album Version) (4:28)
13 God's Lonely Man (Album Version, With Alternate Ending) (2:00)
14 Theme from Taxi Driver (4:02)
15 I Work the Whole City (2:24)
16 Betsy in a White Dress (2:13)
17 Days Do Not End (4:05)
18 Theme from Taxi Driver (Reprise) (2:25)

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Sobre o compositor:

Bernard Herrmann, após ter composto tantas obras-primas da música de cinema, entrou em uma espécie de ostracismo em meados dos anos 60. E o responsável maior por isso foi ninguém menos que Alfred Hitchcock, cujos clássicos O Homem Que Sabia Demais, Um Corpo Que Cai e Psicose (entre outros) não seriam os mesmos não fossem as magistrais partituras de Herrmann. Em 1966, Hitch, em busca de uma música "mais contemporânea", rejeitou a trilha sonora que seu habitual colaborador compusera para Torn Curtain (Cortina Rasgada), o que encerrou a parceria entre o lendário diretor e o genial (mas irascível) compositor. A trilha sonora acabou ficando a cardo de John Addison, e após este fato Herrmann passou a ser visto como uma espécie de dinossauro ultrapassado, sendo esquecido por Hollywood.
Foi graças principalmente a François Truffaut, um grande admirador seu, que o compositor manteve-se em atividade (Fahrenheit 451, The Bride Wore Black), até ser redescoberto por uma nova geração de diretores norte-americanos e retornar à Meca do Cinema no início dos anos 70. Para o roteirista-diretor Larry Cohen Herrmann compôs o inquietante It´s Alive, mas foi para o então jovem Brian De Palma, que estava iniciando uma série de filmes inspirados por Hitchcock, que ele produziu suas melhores obras do período: Sisters (Irmãs Diabólicas, 1973) e Obsession (Estranha Obsessão, lançado em 1976). Em 1975, após concluir seu trabalho para De Palma, o veterano compositor, já com a saúde bastante debilitada pelo scotch e pelo cigarro, dois prazeres dos quais não abria mão, foi contratado por outro jovem e promissor diretor que aprendera a admirar e reverenciar sua obra, Martin Scorcese: o filme, o magistral Taxi Driver.
O próprio Scorcese, nas notas do CD, conta um pouco das dificuldades para contratar o genial (e genioso) Herrmann, mas o esforço compensou. Muito da opressão e da melancolia do filme advém da partitura, que materializou a obsessão do protagonista, uma interpretação antológica de Robert De Niro, ao som de fortes metais e percussão. Para as visões noturnas de New York, filtradas através do pára-brisas do táxi de De Niro, o compositor utilizou um estilo incomum para ele, o jazz. E o fez como um especialista. Após uma introdução com percussão e metais, no "Main Title" Herrmann nos apresenta uma primeira versão de seu tema principal, uma composição elegante conduzida por sax alto. "Thank God for the Rain" e "Cleaning The Cab" acompanham a rotina miserável do motorista de táxi, com os acordes da orquestra, suaves mas sempre opressivos, sendo acompanhados pela bateria de jazz.
Na faixa 4 retorna o saxofone cool do tema principal, ao qual posteriormente, na interpretação do "Betsy´s Theme" se juntam cordas e um trompete com surdina que nos lembram mais Alfred Newman, em seus trabalhos orientados para o jazz, do que propriamente Herrmann. O underscore prossegue, agregando elementos e acordes de suspense típicos do compositor, que transmitem ao ouvinte a sensação de que algo oculto nas sombras irá surgir ameaçadoramente a qualquer instante. A partir de "The .44 Magnum is a Monster", é utilizado um tratamento similar ao de It´s Alive, com fortes acordes dos metais, sopros, harpa e percussão. A isto o compositor agrega o piano Fender nos momentos mais lentos, inclusive solando o tema principal. O resultado é um conjunto de faixas opressivas e psicológicas, sem concessões ao lirismo - exceção feita apenas às ocasionais notas do motivo principal.
As faixas de nºs 1 a 11 contém as gravações originais conduzidas por Herrmann, sendo as mais longas a reunião de composições criadas para diferentes momentos do filme e disponíveis pela primeira vez em disco. Algumas delas, com outra mixagem, já faziam parte do álbum original, onde no entanto predominavam regravações de temas de Herrmann arranjadas e regidas por Dave Blume, também incluídas nesta reedição da Arista. No dia 23 de dezembro de 1975, Bernard Herrmann terminou de gravar a música para Taxi Driver, voltou para o seu hotel e faleceu à noite, enquanto dormia. Morria o homem e nascia o mito que legou à música de cinema uma obra de qualidade excepcional, presente até a última nota gravada. Em 1991 Scorcese prestou um belo tributo ao seu ídolo quando, ao refilmar Cape Fear (Cabo do Medo), convidou o colega e amigo do compositor, Elmer Bernstein, para adaptar a trilha que Herrmann compusera para o filme original. Bernstein foi além, e também utilizou trechos do score rejeitado de Torn Curtain. Mas esta já é outra história...


4 comentários:

thiago disse...

ótimo post.

Yan Kaô disse...

Foda, hein Neide? E eu que pensei em fazer um blogue só com trilhas de cinema. Mete broncaí que tá muito bom!!

neide disse...

Obrigada Yan. O próximo,que demorou uns 10 dias (nas horas vagas) pra ficar pronto, foi o mais terrível e trabalhoso post que preparei até hoje, credo, acho que não faço essa loucura de novo...Espero publicá-lo até quinta-feira.

Abraços!

Maurillius disse...

Travis Bickle é o cara!!! adoro esse filme, mostra a hipocrisia da sociedade e suas falsas regrinhas de comportamento!!!!parabéns pela homenagem.