"O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo." ( Friedrich Nietzsche )

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Miles Davis - The Cellar Door Sessions

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Dedicado ao amigo Yan Kaô...

Miles no Central Park, July 06, 1970

“Entre 1969 e 1970, acrescentei um percussionista brasileiro do Brooklyn chamado Airto Moreira. Airto estava nos Estados Unidos há alguns anos, e tocara no conjunto de Cannonball Adderley com Joe Zawinul. Acho que foi Cannonball ou Joe que o indicaram (esqueci como encontrei Steve). Era um grande percussionista, e passei a ter percussionistas no conjunto desde então. Ele me mostrou o que seu talento e som podiam fazer pro som de meu conjunto. Quando se juntou a nós, tocava alto demais e não ouvia o que acontecia com a música. Mandei que parasse de bater e tocar tão alto e ouvisse um pouco mais. Aí, durante algum tempo, ele não tocou nada, e tive de mandar que tocasse mais um pouco. Acho que ele tinha medo de mim, e quando mandei que não tocasse tanto, simplesmente o deixei confuso. Mas então ele passou a ouvir mais, e quando voltou a tocar, tocava na hora certa.

Airto Moreira

Durante essa época, e nos cinco anos seguintes, usei muitos músicos diferentes em meus discos (e também no grupo permanente), porque vivia buscando as melhores combinações. Usava tanta gente diferente que comecei a perder a pista de todos eles, mas tinha um grupo básico de músicos.: Wayne Shorter (mesmo depois que ele saiu) e Gary Bartz, Steve Grossman, Airto Moreira, Mtume Heath, Bennie Maupin, John McLaughlin, Sonny Sharrock, Chick Corea, Herbie Hancock, Keith Jarrett, Larry Young e Joe Zawinul nos pianos e teclados elétricos; Harvey Brooks, Dave Holland, Ron Carter e Michael Henderson nos baixos; Billy Cobham e Jack DeJohnette na bateria; e três indianos – Khalil Balakrishna, Bihari Sharma e Badal Roy. E depois outros, como Sonny Fortune, Carlos Garnett, Lonnie Liston Smith, Al Foster, Billy Hart, Harold Williams, Cedric Lawson, Reggie Lucas, Pete Cosey, Cornell Dupree, Bernard Purdee, Dave Liebman, John Stobblefield, Azar Lawrence e Dominique Gaumont. Usei todos esses músicos em todos os tipos de combinações, uns mais que outros, alguns uma vez só. Depois de algum tempo, eles ficaram conhecidos no meio musical como “O Estoque de Músicos da Empresa Miles”.
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Jack DeJohnette
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O som de minha música mudava tão rápido quanto eu mudava de músicos, mas eu ainda buscava a combinação que me desse o som que eu queria. Jack DeJohnette me proporcionava um certo clima profundo, no qual eu adorava tocar, mas Billy Cobham me dava um som mais pro rock. Dave Holland tocava o baixo acústico, e eu podia seguir atrás de um modo que não podia quando Harvey Brooks introduzia o som de seu baixo elétrico. O mesmo acontecia com Chick, Herbie, Joe, Keith e Larry. Eu via tudo isso como um processo de gravar toda aquela música, de registrá-la á medida que ela fluía de minha cabeça.
Em 1970, me pediram que tocasse no espetáculo televisado de entrega dos Prêmios Grammy. Quando acabei, o mestre-de-cerimônias, Merv Griffin, correu pra mim, agarrou meu braço e se pôs a falar aquela besteirada toda. Cara, foi um vexame. Empurrei o babaca ali mesmo, na frente da televisão, ao vivo. O cara correu pra mim dizendo aquelas idiotices que dizem os apresentadores de televisão, por não terem nada mais pra dizer e não saberem – ou não ligarem pra – o que estão fazendo. Falam apenas pra encher lingüiça.

Ao lado, Miles no Steve Allen Show em 1964

Eu não gosto dessa merda, e portanto, depois disso, não fui a muitos programas de entrevistas, a não ser os de Johnny Carson, Dick Cavett e Steve Allen. Steve era o único dos três que sabia um pouco o que eu fazia. Pelo menos tentava tocar piano e fazia perguntas inteligentes.
Johnny Carson e Dick Cavett não me mostraram nenhuma compreensão do que eu tentava fazer; eram caras legais, mas pareciam não saber nada de música. A maioria desses apresentadores de televisão apenas tentava se comunicar com alguns brancos cansados e velhos, de algum lugar do qual ninguém ouvira falar. Minha música era demais pra eles, porque tinham os ouvidos acostumados a Lawrence Welk.
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Esses programas de entrevistas só punham um negro na televisão naquele tempo se ele sorrisse, bancasse o palhaço, como Louis Armstrong. Isso eles curtiam. Eu adorava o trompete de Louis, cara, mas odiava aquele seu jeito de sorrir pra ficar bem com alguns brancos cansados. Cara, eu odiava quando o via fazendo isso, porque ele era quente, tinha consciência negra, era um homem realmente decente. Mas a única imagem que as pessoas têm dele é aquela sorridente da tv.
Imaginei que, se eu fosse a esses programas, teria de dizer aos sacanas que eles eram patéticos demais, e sei que eles não iam querer isso. Portanto, na maioria das vezes eu simplesmente não ia. Depois de algum tempo, até mesmo o programa de Steve Allen se tornou branco e idiota demais pra mim. Eu só ia ao programa porque Steve é um ser humano decente. E eu o conhecia há muito tempo. Mas ele queria me pagar apenas a tabela do sindicato pra eu tocar. Depois de algum tempo, deixei definitivamente de ir a qualquer desses programas, e a Columbia acabou se irritando, porque os via como um meio de vender mais discos.

Miles Davis, Michael Henderson, Keith Jarrett, 1971

Logo após o funeral de Jimi Hendrix (setembro de 1970), Chick Corea e Dave Holland deixaram o conjunto, e eu trouxe Michael Henderson pro baixo. Michael vinha tocando com a orquestra de Stevie Wonder e com Aretha Franklin. Conhecia as figuras do baixo que eu queria, e fiquei muito feliz por tê-lo no grupo. Mas antes dele vir permanentemente, Miroslav Vitous fez umas duas apresentações como substituto de Dave. E então Gary Bartz substituiu Steve Grossman e eu me vi com um conjunto inteiramente novo.
Eu abandonava os solos no som do grupo, passava mais pra coisa de conjunto, como os grupos de rock e funk. Queria John McLaughlin na guitarra, mas ele gostava do que estava fazendo no conjunto Lifetime, de Tony Williams. Consegui que tocasse conosco na Cellar Door, em Washington, numa apresentação que fizemos lá posteriormente, naquele mesmo ano. As fitas que fizemos nessa ocasião foram mixadas no disco Live-Evil. A essa altura eu usava o tempo todo o wah wah no trompete, pra chegar mais perto daquela voz que Jimi fazia quando usava o wah wah na guitarra. Sempre tocara o trompete como guitarra, e o wah wah aproximava mais o som.
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Gary Bartz

Nessa época brotavam grupos de fusão por todos os lados: o Weather Report de Wayne Shorter e Joe Zawinul; o Return to Forever de Chick Corea; o grupo de Herbie Hancock, chamado Mwandishi; e um pouco depois John McLaughlin formou seu conjunto, a Mahavishnu Orchestra. Todo mundo salmodiava agora, naquela de paz e amor. Até eu deixara de beber e tomar drogas por um tempo, e estava numa de comida natural e de cuidar de mim. Tentava deixar de fumar, mas era mais difícil deixar o cigarro do que qualquer outra coisa.
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Em 1971, fui escolhido o Homem de Jazz do Ano pela revista Down Beat, e meu conjunto foi eleito o melhor do ano. Também me elegeram melhor trompetista. Não dou muito valor a essas coisas, embora saiba o que elas significam pra carreira de alguém. Não me entenda mal; estou feliz por ter ganho esses prêmios, mas não é uma coisa que eu curta de fato.
Airto Moreira saiu no início de 1971, e consegui o filho de Jimi Heath, Mtume, pra substituí-lo na percussão. Ficamos sem gravar por algum tempo, porque é preciso deixar o conjunto se acostumar a tocar junto pra gravar alguma coisa. Caímos na estrada pra tentar nos entrosar.
Mtume era maluco por história , e eu o conhecia através de seu pai, por isso conversávamos muito. Eu lhe contava velhas histórias e ele me contava coisas que tinham acontecido na história africana, porque realmente curtia isso. Além do mais, era insone como eu. Assim, eu podia ligar pra ele às quatro da manhã, porque sabia que estaria acordado.

Keith Jarrett,
Michael Henderson,
“Ndugu” Chancler e Miles, 1971


Jack DeJohnette deixou o grupo no fim de 1971, mais ou menos na mesma época que Keith Jarrett. Eu queria que o baterista tocasse certos ritmos funk, um papel exatamente igual ao de todos no conjunto. Não queria que o conjunto tocasse livre o tempo todo, porque em minha cabeça me aproximava mais do funk. Ora, Jack tocava pra caralho como base, sabia realmente fazer isso, mas também queria fazer outras coisas, tocar um pouco mais livre, ser um líder, fazer tudo à sua maneira, e por isso saiu. Experimentei Leon “Ndugu” Chancler (que mais tarde tocou em discos de Michael Jackson e Stevie Wonder, na década de 80). Chancler foi pra Europa comigo no verão de 1971, mas não deu certo, e quando voltei, Jack DeJohnette retornou pra algumas apresentações. O mesmo aconteceu com Billy Hart. Mas depois que Gary Bartz, Keith e Jack saíram, fui buscar meus músicos em grupos de funk, e não de jazz, porque era pra esse lado que estava indo. Esses caras foram os últimos de jazz puro que tive em meus conjuntos, até hoje.”

(De sua Autobiografia, pp 273 a 275, 279 a 281)


. The Cellar Door Sessions (1970)
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Miles Davis – trumpet
Airto Moreira - Percussion
Garry Bartz – soprano and alto sax
John McLaughlin – guitar (discs 4&5)
Michael Henderson – Electric Bass
Jack DeJohnette – Drums

Disc 1

1 Directions (8:55)
2 Yesternow (17:05)
3 What I Say (13:12)
4 Improvisation #1 (4:29)
5 Inamorata (14:00)

Baixar parte 1

Baixar parte 2

Disc 2

1 What I Say (13:33)
2 Honky Tonk (19:59)
3 It's About That Time (14:41)
4 Improvisation #2 (6:39)
5 Inamorata (14:33)
6 Sanctuary (0:30)

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Disc 3

1Directions (13:11)
2 Honky Tonk (18:31)
3 What I Say (15:09)

Baixar parte 1

Baixar parte 2

Disc 4

1 Directions (11:53)
2 Honky Tonk (17:00)
3 What I Say (14:12)
4 Sanctuary (2:03)
5 Improvisation #3 (5:04)
6 Inamorata (15:14)


Baixar parte 1

Baixar parte 2

Disc 5

1 Directions (15:09)
2 Honky Tonk (20:49)
3 What I Say (21:31)

Baixar parte 1

Baixar parte 2

Disc 6

1 Directions (19:04)
2 Improvisation #4 (5:03)
3 Inamorata (18:27)
4 Sanctuary (2:12)
5 It's About That Time (7:49)

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Baixar parte 2

16 comentários:

GRAVETOS & BERLOTAS disse...

Neide, os puristas que acusaram (e ainda acusam) Miles de estar envenenando (no pior sentido) o jazz com essas modernizações por querer se tornar comercial, devem estar se mordendo ao ler estes relatos absurdamente sinceros e sempre direcionados a melhorar sua música. Este era seu único propósito.
Valeu!

Neide disse...

Oi Edson,

eu sei, há uns extras no dvd com a participação dele na na Ilha de Wight(show na íntegra), onde se vêem vários depoimentos de músicos da época falando justamente isto: "puxa, eu só tentava ouvir aquilo por ser de Miles, na realidade não nos conformávamos com aquela direção que ele tomava...", coisas do gênero...
Ainda bem que ele não ligou pras críticas e seguiu em frente, não é, nos deixando pérolas como essas..

Beijos em vocês!!

Yan Kaô disse...

POxa, Neide, obrigado pela homenagem... Não mereço, sinceramente... e por falar em Miles, ele é como os gigantes da arte: tomam a direção que querem tomar (como Hermeto, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Villa Lobos, e muitos outros), pois não são movidos por industria ou modismos, são movidos pela Arte. Sabiamente obedecem e o mundo ganha sempre, com satisfação, novas lições de identidade e liberdade.

woody disse...

Oi Neide,
não encontrei nada para baixar, mas não posso deixar de elogiar esses maravilhosos Miles que vc postou. Ao ler o comentário do Edson me lembrei de Wynton Marsalis um purista que toca como Miles tocava nos anos 50, embora tenha muita técnica e saiba muito de música, não consigo ouvir um disco dele inteiro. Ainda bem que Miles "envenenou" o jazz com suas modernizações, pois seria muito chato ouvir jazz no século 21 se não fosse por ele.

Seu fã,
WOODY

Neide disse...

Oi Woody,

bem, elogios vindos de você obviamente são uma honra...eu cheguei a te dizer que estou colaborando com um amigo no blog progressivo? 0 endereço está no perfil...

Abraços, também sou sua fã!

MUTUMUTUM disse...

Sinto-me um completo ignorante, mas não conheço nenhum trampo do Miles DAvis :(

Excelente oportunidade pra deixar a ignorância de lado. Adorei o post explicando tão bem as idéias do cara... dá, mesmo, vontade de conhecê-lo melhor :)

Beijão

Anônimo disse...

Neide,
Infelizmente, não consegui baixar os discos 3, 4, 5, e 6, pois os links estavam quebrados. Seria possível o conserto dos mesmos?
Muito obrigado pela atenção e parabéns pelas belas postagens do Miles.

Neide disse...

Tudo bem, eu já subi outros links...até amanhã eu conserto, ok?

Anônimo disse...

Do fundo do meu coração...valeu! Estarei aguardando com muita expectativa.
A sua generosidade parece infinita. Continue assim.

Neide disse...

Puxa anÔnimo, deixe um nominho por favor, nem que seja fictício...sei lá, de repente deixo algum recado pra você, e não sei como te chamar...

Abraços

Anônimo disse...

Meses atrás trocávamos comentários pelo lágrima psicodélica ou pelo blog "seres-da-noite". Meu nome é Fernando.
Abraços.

Neide disse...

Ahhhhh tá, me lembro de você sim...puxa Fernando, que prazer ver você freqüentando o Portfolio! Mais tarde, quando a correria diminuir, com certeza eu troco os links, ok? Abraços!

Anônimo disse...

Ok Neide.
Grande abraço.

Fernando

Neide disse...

Pronto Fernandinho, está tudo ok agora...não deixe de baixar o On the Corner também, essas sessões são matadoras!

Abraços e curta bastante!

Anônimo disse...

Conheço as sessões de gravação do ON THE CORNER e realmente são arrasadoras.
Querida Neide muito obrigado pelo conserto dos links (curtirei bastante esse som) e, mais uma vez, parabéns pelo excelente blog.
Tudo de bom neste ano de 2008.

Fernando

Discomplex disse...

Oi Neide! Cheguei ao seu blog à procura das Jack Johnson... mas ainda não sai daqui de tão maravilhoso que é ter ainda mais do Miles à disposição... agora estou a tentar baixar as Cellar Door... mas recebo erros nas 3-1, 5-1 e 6-1... será que seria possível você uploadar de novo? Muito agradecido e continue o magnífico trabalho!